O desordenamento territorial
Esta semana fui à Galiza, mais propriamente a uma terreola perto de Vigo, cujo nome já não recordo. Saídos do Estoril às 7 em ponto da manhã, chegávamos ao destino aí pelas 12 e 15 (13,15 de Espanha). Como me habituei a não comer sentado e de faca e garfo quando a viagem é grande, afim de evitar a sonolência que normalmente “ataca” quem conduz, seguimos de rota batida com a prudente orientação: devagar que temos pressa, enganando a fome com dois ou três croquetes e um pastel de nata. Porque não tenho “autorização” conjugal de ultrapassar os 120/130 kms/hora (...) ganho com a uniformidade moderada da velocimetria uma segurança redobrada. De Lisboa - ou mais precisamente, de minha casa no Estoril - até Vigo consumimos, portanto, cerca de 5,15 horas, tendo seguido pela A1 que, nessa manhã, até estava menos congestionada do que é costume. O leitor interrogar-se-à:- que diabo de interesse poderá merecer a deslocação do cronista à vizinha terra da Galiza? E eu responder-lhe-ei que o eventual interesse não estará na viagem propriamente dita, como parece evidente, mas na localização e no vazio que encontrei na auto estrada que percorria pela primeira vez. Não quero pecar por defeito, mas quase que seria capaz de pôr as mãos no fogo se mentir dizendo ter cruzado com não mais de uns 15 a 20 carros no percurso que vai de Espinho ao começo da CREL (cerca de 300 kms.). Enquanto isto acontecia, àquela mesma hora centenas e centenas de infelizes moradores nos dormitórios lisboetas consumiam tempo, energia e combustível para passar a ponte sobre o Tejo, no intuito de fugir ao engarrafamento que diariamente os exaspera com carradas de razão. Daqui logo se conclui que, pelo menos em matéria de ordenamento rodoviário, somos tão bons quanto eu fui campeão de natação, estafado ao cabo de meia dúzia de braçadas... Como foi possível que técnicos obviamente vocacionados para o traçado de auto-estradas de primeira qualidade tenham levado o Estado, ou lá quem seja, a despender quantias fabulosas insusceptíveis de poderem ser úteis e rentáveis? Como é possível que aconteçam semelhantes coisas num país que, a cada dia que passa, vai sentindo e sofrendo as consequências da fatalidade periférica e mais se afasta da prosperidade que bafeja a maioria dos parceiros europeus ? Como é possível optar pela solução TGV, Lisboa-Porto com a previsão de se “ganharem” 15 minutos?
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