Vantagens de ter um treinador estrangeiro
Cristiano Ronaldo, jovem português de 23 anos, foi considerado o melhor jogador de futebol do mundo. Trabalha em Manchester, na Inglaterra, e é treinado por um escocês, Sir Alex Ferguson. Luís Figo também já foi eleito o melhor futebolista do mundo. Foi em 2001, jogava no Real Madrid e era treinado pelo espanhol Vicente del Bosque. O Benfica ganhou a Taça dos Campeões Europeus nos anos de 1961 e 1962. Todos os jogadores, sem excepção, tinham nacionalidade portuguesa mas treinador era um húngaro - Bela Guttman. A melhor prestação de sempre da Selecção Portuguesa de Futebol verificou-se recentemente, no Europeu de 2004. Portugal foi vice-campeão europeu e era treinado por Luís Filipe Scolari, um brasileiro. Ainda não há muito tempo que a Auto Europa, empresa da multinacional Volkswagen, obtinha a melhor produtividade do grupo a nível mundial. Os trabalhadores eram portugueses, mas a administração era presidida por um espanhol - Emílio Sáenz. Até 1974, Portugal cultivava a política do “orgulhosamente sós”. As decisões estratégicas, fossem políticas, económicas, ou militares, não se submetiam a interesses ou pressões internacionais. Eram decisões tomadas em Portugal, por portugueses e à portuguesa. Mas nem por isso passámos da cepa torta, quedando-nos pelos últimos lugares do ranking europeu do desenvolvimento. A partir de 1974 e até 1986, o nosso país foi uma espécie de terra de ninguém, um laboratório político onde não se sabia bem quem mandava - se eram os portugueses, os russos, os americanos, ou os “europeus”. Foram tempos de bagunça, com os governos a caírem uns atrás dos outros e enormes desvalorizações cambiais, inflações galopantes e taxas de juro acima dos 30%. Após a adesão à CEE, em 1986, entrámos para o clube dos ricos. Recebemos milhares de milhões de contos. E com eles fizemos auto-estradas e rotundas, estádios de futebol e pavilhões gimnodesportivos, centros culturais e expos. E demos subsídios, muitos subsídios. Foram subsídios para o teatro e o cinema, a moda e as misses, as televisões e os jornais, os clubes de futebol e as agremiações de bairro, a formação profissional e a internacionalização. Houve subsídios para todos os gostos. Até um dia! O dia em que o clube dos ricos se alargou e o dinheiro que era distribuído por poucos, passou a ser distribuído por muitos. O dia em os ricos foram verificar o conteúdo do seu cofre e verificaram que ele estava a ficar vazio. E, finalmente, o dia em que os ricos constataram que, apesar de terem despejado toneladas de dinheiro para cima deste país, ele continuava no sítio onde sempre esteve - na cauda da Europa. O que significa que o nosso problema não é falta de dinheiro. O nosso problema é outro. O nosso problema é a forma como ele é gasto. O nosso problema é de gestão, de governação, de liderança. Em suma, dos treinadores. Mas neste período não houve só misérias, más decisões e dinheiro mal gasto. Houve, pelo menos, uma decisão acertada - a adesão à moeda única. Foi a decisão mais importante do século XX. Com ela acabaram-se os orçamentos martelados e os défices estratosféricos. Acabou-se com a balda da desorçamentação, fosse através de Fundações e Institutos Públicos, ou de outros esquemas sucedâneos. Acabou-se com a tentação das falcatruas orçamentais. As contas passaram a ser rigorosamente controladas por Bruxelas, o nosso actual treinador. É reconfortante, em tempos de crise, ter alguém competente a velar por nós. É um consolo ser treinado por alguém que sabe do ofício. E que, magnanimamente, aceita ter como treinadores adjuntos alguns portugueses de competência duvidosa - os nossos governantes. Os anteriores, os actuais e os que hão-de vir. carlos-a-abrantes@clix.pt
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