Futebol será a próxima bolha a rebentar
“Sobre a nudez, foste de verdade, o manto diáfano da fantasia” Eça de Queiróz Quem acompanha o evoluir da presente crise financeira, que parece não ter fim à vista, lhe analisa as causas e verifica os seus efeitos, não pode deixar de se surpreender com as semelhanças que, na sua génese e desenvolvimento, tem, com o fenómeno do futebol de alta competição. Por isso, me atrevo a antever os seus efeitos: o futebol de alta competição, nos seus moldes actuais, tem os seus dias contados. A bolha vai rebentar! A presente crise que abala o mundo e, com particular virulência, o nosso país, começou com um bolha. Uma bolha especulativa no mercado imobiliário e de acções americano, facilitada com a ausência de uma verdadeira regulação financeira e potenciada pela criatividade dos artistas da Banca, a inventarem novos produtos financeiros, a alavancarem os antigos e a despertarem a gula dos investidores. Um frenesim consumista, sem limites e sem pudor. Convenceram os incautos e gulosos clientes que os valores dos activos imobiliários, principalmente, e muitos outros, seriam eternamente valorizados e com taxas de juro ao preço da chuva, que eles poderiam renegociar as suas hipotecas imobiliárias uma, duas e mais vezes e, assim, conseguirem mais créditos ainda, para se endividarem com novo carro, novas mobílias e aí por adiante. Uma festança, um Paraíso, ao alcance de qualquer bolsa. “As crises são animais de hábitos. Começam com uma bolha, em que o preço de um activo sobe acima do seu valor fundamental subjacente e com os investidores a contraírem empréstimos para participarem no boom”, definiam assim, Nouriel Rubini e Stephen Mihm, em “Economia de Crise”, as raízes profundas destas turbulências que nos vêm afectando. Bolhas essas que vão pairando por aí, com a do futebol. Ainda não há muitos anos, rara era a estrela de futebol que atingia o valor de um milhão de euros, no mercado internacional. Valor que era considerado irreal no mercado interno, tendo os nossos clubes que recorrer à prata da casa, polvilhada, aqui ou acolá, com um ou outro sul-americano ou nórdico, para dar mais sal ao espectáculo. Os bilhetes eram acessíveis, os estádios sempre bem compostos e, apesar da hegemonia dos três grandes, a competição era relativamente acesa. Um espectáculo que embriagava o povo e, por isso, o polvo financeiro, criativo como sempre, inventou mais um produto: as SADs! Um verdadeiro ovo de Colombo! Bastava acrescentar mais um ou dois dígitos à direita do valor original de transferência dos atletas e os activos dos clubes, como que por magia, subiam até à estratosfera, saindo do comatoso estado de falência técnica onde tinham mergulhado. E o milagre acontecia. Simplesmente maravilhoso, tal e qual os activos imobiliários.
Mas, como no mundo social em que vivemos, esta onda criativa neocapitalista, gerou uma outra face, a face negra da nossa Lua. Vários clubes entraram em falência, como são exemplo o Boavista, o Salgueiros ou o Estrela da Amadora e muitos mais, estão, em fila, no corredor da morte, à espera da sua hora. As dívidas dos nossos clubes, vão-se acumulando, alegremente, a exemplo do nosso Estado, a competitividade da Liga, a exemplo do nosso País, baixou para níveis inimagináveis, com o terceiro classificado já com quase menos 40 pontos do primeiro e com os estádios com menos de 20% de espectadores do que no ano passado. Ganhámos duas ou três equipas de nível europeu, mas à custa dos jogadores portugueses, sem espaço para se afirmarem, e à custa do próprio futebol português, que vai, paulatinamente, desaparecendo. Uma bolha que resulta de contradições insanáveis, tal e qual a nossa sociedade! Uma bolha enorme, cristalina, cada vez maior. Pronta a rebentar! Como Portugal! n NELSON LEAL
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