Crise escondida com rabo de fora
Já se sabe que a troika decidiu guardar 12 mil milhões para a banca portuguesa. Também é sabido que a banca a tal pouco disse, “para quê?, se está tudo bem.... as provas de stresse valem mais que mil palavras, etc e tal”. A coisa não é fácil, eles sabem muito bem disso, mas convém que o povinho mantenha a calma, pois a avestruz de cabeça enterrada, nunca fez mal a ninguém. A verdade é que o Banco de Portugal e os bancos andam de candeias às avessas e os bancos preparam-se mesmo, para pedir dinheiro, que o Outono promete ser invernoso. Prepara-se, diz quem sabe, uma nacionalização temporária, por via das dúvidas. Banca sem capital, é o mesmo que depositante sem crédito. Ou seja, cliente falido! É mesmo esta, a ameaça que paira sobre a nossa banca, pesem os imensos e chorudos lucros acumulados, que se vão perdendo em off-shores e aplicações estrambólicas, esvaindo, cada vez mais, o sangue da nossa anémica economia. Os especialistas, temendo o pior, já se preveniram com os tais 12 mil milhões... até porque, mais do que os depositantes, interessam os accionistas e quem precisa de crédito. Os bancos vivem das suas carteiras de crédito e ainda mais, quando o capital escasseia. Por isso, precisam de as vender... e com desconto. Ou seja, a perder dinheiro, tendo em conta que os juros estão pela rua da amargura. Por isso, já que, lá fora, ninguém pega nessas carteiras, a solução é o Estado, fiel depositário dos 12 mil milhões! Mas o Estado precisa de garantias, coisa de meter políticos na gestão da Banca, de pôr travões nas mordomias, dividendos e salários, etc e tal. Uma chatice, com o pessoal da grana a fazer manguitos e as acções a desvalorizarem-se. Há umas semanas, estiveram cá uns técnicos a fazer testes de stress (isto dá-me cá um stress!...) à capacidade do sistema bancário. Algumas areias na engrenagem, substituição de velas, alinhamento da direcção e pronto, inspecção aprovada! A euforia do costume e as garantias de um futuro radioso. O costume... Lembro o que escreveu Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios a 26 de Julho (que serviu de tema ao presente artigo)... “Os bancos nunca estiveram preocupados com as novas regras de malparado e não stressaram com os testes de resistência porque estes não simularam o valor de mercado nos seus balanços da dívida pública dos países aflitos. O medo dos bancos está noutro teste, que arranca depois do Verão: a reavaliação das carteiras de crédito. É disso que Salgado e Ulrich falam quando falam de critérios “fundamentalistas”.” Recordo que foi tal teste que tramou a Irlanda e que levou à nacionalização da banca daquele país. Porque a causa nuclear que está na raíz de todos os nossos problemas, mantém-se em todo o seu esplendor: a bolha imobiliária. Como todos sabemos, nesta louca espiral de casino, o valor das habitações atingiu números estatosféricos, totalmente alheios á realidade. Agora, a tróika exige “nova métrica”, nas palavras de Pedro Santos Guerreiro, que obriga a um recálculo do valor de mercado do sector imobiliário. Este exercício de verdade, vai criar um monumental buraco financeiro, a exigir a rápida intervenção do Estado. Que dirão estes eufóricos neoliberais, perante tudo isto? E o crédito mal-parado que atingirá valores nunca antes vistos? Com as empresas descapitalizadas e sem o apoio da banca, sem investimento privado e público, como é possível recuperar a economia, condição indispensável à estabilização das nossas contas públicas? Todos falam da dívida pública e todos acusam os políticos que nos têm governado nas últimas dezenas de anos, das suas mal-feitorias. Mas todos se esquecem de olhar para o seu próprio umbigo e para o desvario consumista em que se deixaram levar, no enlevo do doce cantar das nossas sereias da banca. A dívida privada está a atingir dimensões insuportáveis, para as quais o Estado não tem respostas. E remato esta crónica, citando novamente o mesmo e insuspeito economista: “Eis o grande paradoxo: os liberais é que defendem a entrada temporária do Estado nos bancos. Vai ser impossível explicar, mas a ajuda do Estado aos bancos não será a ajuda aos donos dos bancos. Ao contrário do que parece, isso é que vai trazer perdas para os seus accionistas. Por isso é que eles não querem. Por isso é que a economia precisa. Como veremos nos próximos meses”. n NELSON LEAL
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