O milagre
Terá sido aí pelos idos de 1300 - reinava em Portugal El-Rei D. Diniz, o Lavrador - quando aconteceu o chamado “milagre das rosas”. Um “milagre” que não há quem desconheça. O rei, irritado com o que considerava a tendência perdulária de sua mulher, a rainha D. Isabel, que, segundo diziam, dava demais aos pobres ignorando os ricos, tendo tomado conhecimento de que ela estava a percorrer as ruas de Coimbra, entregando donativos aoss que lhe pareciam mais necessitados, foi-lhe no encalço. Ao confirmar a veracidade da informação ( já então havia informadores…), o monarca admoestou Dona Isabel, evidenciando o desagrado que lhe provocava a actividade caridosa a que a raínha se dedicava. Indagada acerca do que levava no regaço, a raínha respondeu ao marido que eram rosas e só rosas, afirmação arriscada que, segundo a lenda, o rei logo confirmou. O “milagre” acontecera. Naquele tempo, pelos vistos, havia quem transformasse o dinheiro em flores, ao contrário do que sucede nos nossos dias , quando alguns privilegiados conseguem, por vias pouco ortodoxas, realizar o “ milagre” de metamorfosear, o poder ou a influência que exercem, em metal bem sonante. As rosas de antenho são agora os apartamentos e as acções dos Bancos e das grandes empresas. Com mais esta significativa diferença: os “milagres” dos nossos dias fazem-se às claras, com total impunidade, sem pudor nem recato . Agora é o dinheiro que floresce… Aqui há anos, quando acompanhei o Presidente Mário Soares numa viagem oficial a três ou quatro países da África ocidental, ouvi da boca do presidente da Costa do Marfim , quando visitámos a Basílica de Yassumukro (maior que a do Vaticano!) que o presidente Houphouet de Boigny mandou edificar no meio da selva e que custou a módica quantia de 500 milhões de dólares, ouvi esta coisa espantosa: “O dr. Mário Soares não julgue que esta obra foi feita com dinheiro do Estado ou do povo. Foi construída com dinheiro meu e de minha irmã !” Dispenso-me de reproduzir o comentário (feito naturalmente em surdina ) do Presidente Soares, mas fiquei com a convicção de que no momento em que foi iniciada a construção do mastodonte outro “ milagre “, do género do acima recordado, terá acontecido, só que às avessas: a cubata onde o senhor Boigny nasceu algumas décadas atrás terá sido “”tocada” por uma varinha de condão que lhe deu a possibilidade de transformar a palhoça de colmo em paredes de ouro maciço e o telhado em cristal da Boémia « bizoté»…A aridez da estepe africana pedindo meças à Place Vandôme ! É o que está a acontecer agora em Angola, onde não se constroem Basílicas mas, em contrapartida, se tornou possível que meia dúzia de cidadãos e cidadãs, rodeados pela miséria generalizada, como acontece com as penínsulas relativamente à água, que as rodeia por todos os lados menos por um, precisamente aquele que permite aos ”ilhéus” tornados ricos como Crésus o escoamento fajuto das imensas quantias de numerário provenientes das comissões “devidas” pela exploração petrolífera e diamantífera que fazem de Angola um novo «eldorado». Um novo «eldorado» que, entretanto, já permitiu a aquisição, em Portugal (e não só) de acções de grandes empresas, apartamentos e herdades sem conta. Pelo andar da carruagem, os colonizadores de outrora são os colonizados de agora. Mísera sorte a nossa. Grande oportunidade a deles! n MJHM Director Honorário SP
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