Clube da Venda Nova: Dois ou três discursos para dizer o mesmo de várias maneiras
Os membros do Clube multiplicam-se em deslocações a associações, grupos desportivos, recreativos, culturais e folclóricos, para participarem em ceias e festas de Natal. Também o director da Segurança Social, Celestino de Almada, por via da função, tem que digerir quintais de bacalhau, do alto nas mesmas festas. “Fazemos uma escala - disse o Gil Pedalais, em reunião com os seus pares - e vamos destacar quem vai e aonde. Apetite e discurso é o que é preciso”. “Mas o melhor é levar um improviso escrito, para não nos enganarmos - acrescentou o João Piedoso - por exemplo, se vamos a um lar de idosos, não podemos anunciar projectos para quando eles forem crescidos, se formos a uma banda de música, não podemos dar-lhe os parabéns por dançarem bem o malhão...”. “Pois é - acrescentou o Jorge Enfermeiro - mas mesmo assim há que ter cuidado para não tirar o discurso do bolso errado, é mais conveniente dizer a mesma coisa em todo o lado, porque os ouvintes são diferentes”. “Eu não corro o risco de me enganar, porque o meu discurso cabe em qualquer situação, é sempre adequado - explicou o Pedalais - temos que acertar com o Celestino de Almada, que está sempre a ouvir-nos e nós a ele. Vamos preparar dois ou três discursos para dizer as mesmas coisas de várias maneiras e ele que arranje também um ou dois para usar, de acordo com o nosso, para não nos repetirmos”. “Mas ele vai ter dificuldade em não se repetir - replicou o Enfermeiro - este ano anda a falar muito no PARES, que eu nem sei bem o que é, mas temos que lhe dizer para voltar a falar no comboio e nas pernas partidas no jogo de futebol do Carqueijo”. A Excelsa da Corga, que ouviu a conversa sem nunca interferir, acabou por dizer: “Eu fujo um bocado a ir, porque não quero perder a linha e as batatas com bacalhau engordam muito!...”. ****** Garbosos, com donaire, apesar da tarde parda, chuvosa e fria, os Voluntários da Agulheta desfilaram e inundaram a baixa de Águeda com o brilho dos capacetes e dos machados, à frente dos carros de combate ao fogo, ao desastre, ao perigo, à doença. Muitas pessoas acotovelavam-se para vê-los passar. Num aglomerado junto ao quartel, começou a andar, esgueirando-se entre as pessoas, um homem de estatura média, embrulhado num sobretudo azul, de bom corte e com um boné de meia pala, da mesma cor, enterrado na cabeça. “Quem é aquele?”, perguntou o Antunes da Bichamoira para o Acacito da Natália, que estava ao lado. “É o Egberto das Canas, parece que anda à procura de alguma coisa...”. O Egberto que ouviu, empertigou-se, levantou a pala e disse com agressividade: “E sou eu mesmo, ando à procura de uma coisa que é algum de vocês que a tem, desapareceu-me no almoço e vocês estavam lá ao pé de mim!” “Com a preocupação com que estás, deve ser alguma coisa de importante! “, comentou o Fernando Granizo “Pois é, falta-me uma luva, mas não é uma luva qualquer! É uma luva preta, de calfe autêntico, com dedos de encolher e esticar, que comprei no Camossa há mais de 40 anos, quando vim do Brasil. Lembro-me bem, foi num dia de cheia e tive que ir de barco até ao Camossa...”, disse o Egberto. E começou a fungar. “Mas alguém te tirava isso!?”, exclamou o Antunes - uma luva só não serve para nada!” “Vais já descobrir quem foi - disse o Acacito, com ar grave - vê lá se está por aí algum maneta? “. O Poeta Catula, que assistiu a tudo, improvisou este belo poema alusivo ao mistério da luva preta desaparecida: “Perdeu a luva o Egberto/De pelica de primeira/Traz de fora a mão com luva/E a outra na algibeira! O Acacito, atento e sério/Qual detective fino e esperto/Descobriu logo o mistério:/Quem roubou a luva preta/É, de certeza, maneta!
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