A (falida) indústria do futebol português
Será ainda o futebol profissional um desporto? Valerá a pena, ainda, apostar na formação das camadas jovens se, chegando os atletas nacionais à idade sénior, vêem o caminho barrado por estrangeiros, alcançando os de nacionalidade brasileira, a espantosa percentagem de 60% da totalidade dos jogadores inscritos na chamada Super Liga? Não contabilizámos a legião de mercenários de outras paragens. A paixão tudo permite, até esta loucura… Uma paixão bem orquestrada pelo poder político, bem aproveitada pelo poder económico e financeiro e bastante explorada, pelas riquíssimas instituições que as gerem. Lembro-me bem, ainda nos meus dourados anos de vida, do saudoso Estádio da Luz, com as suas bancadas de cimento frio, aquecido pelo fervor das multidões, que, invariavelmente, se enchiam de cor, quando os jogos televisionados eram ainda uma raridade, de uma cena que bem ilustra esta paixão. Já o jogo tinha começado, quando, alguém, cego, de bengala sinalizadora, se ia esgueirando por entre os espectadores, à procura de um lugar livre. Depois de alguns percalços e outras tantas pisadelas, lá conseguiu o desejado lugar vago. Sentou-se, arrumou a bengala, encostou o transístor ao ouvido, de rosto quase colado aos joelhos, e ei-lo, vibrante de emoção, a dar pontapés no vazio, a adivinhar o golo em cada lance mais emocionadamente relatado pelo locutor de serviço, perante o gáudio dos vizinhos, menos perturbados do que o invisual, perante o tranquilo desenrolar das jogadas.
Paixão clubista
A paixão deste simpático invisual apenas se distingue da paixão clubística de todos nós, num insignificante pormenor: a necessidade de uma bengala. Porque, quanto ao resto, parecemos todos invisuais, a carecer de outro tipo de bengalas. Não nos perturba o escândalo desta Babilónia, que cresce sem limites e sem vergonha. Não nos incomodam as consequências de uma política cega, que, comprometida com resultados de curto prazo, hipoteca o futuro do nosso futebol. Fingimos que não vemos a distorção que existe entre os orçamentos previstos pelas equipas de futebol e as receitas efectivas que conseguem efectivamente alcançar. O caso do Estrela da Amadora não passa da ponta de um grande iceberg, que esconde o enorme buraco em que os nossos clubes se enterraram. Outros desastres virão e novas soluções de remedeio se encontrarão, porque, no fundamental, irá ficar tudo na mesma. E porquê? Por uma razão muito simples: porque interessa, no imediato, a quem manda nos destinos da bola, seja pela adrenalina do poder, seja pelos jogos de influência, seja por obscuros objectivos, que tudo continue como está!
Política desportiva
No fundo, falta ao nosso futebol uma verdadeira política desportiva. Um exemplo? Atentemos na nossa selecção nacional: dois dos nossos jogadores mais influentes, são brasileiros. Na lista de candidatos, já se perfilam o Paulo Assunção e o Liedson, com a bonacheirona simpatia do nosso Grão-Duque, Gilberto Madaíl, tendo em conta o deficit de jogadores com as características dos candidatos, para as respectivas posições. Tudo isto me parece uma pescadinha de rabo na boca: faltam cada vez mais jogadores de qualidade, porque não existe espaço de afirmação para os nossos lusitanos artistas e são precisos cada vez mais estrangeiros, para garantirem essa mesma qualidade. Bonito, não é? Carlos Queirós, antes de chegar ao poleiro, ainda cantava de galo, clamando: “É preciso uma vassourada” na estrutura da Federação Portuguesa de Futebol. Chegado ao poleiro, já não clama pela vassourada, clamando já muitos por uma outra vassourada que o leve dali para fora… Todo o homem tem um preço, dizem, mas precisamos, e cada vez mais, de alguém que valha um preço exorbitante, a ver se a desejada vassourada chega, finalmente!
Um fado comum
O caso do Estrela da Amadora não passa da ponta de um grande iceberg, que esconde o enorme buraco em que os nossos clubes se enterraram Por isso, os resultados desportivos dos nossos principais emblemas, no âmbito europeu, são, cada vez mais, menos convincentes e condignos com o seu historial. Parecemos a “Jangada de Pedra” Lusitana, de José Saramago, a afastar-se, paulatinamente da Europa. Tal e qual o país. O futebol à deriva, o País à deriva, o Benfica à deriva. Se Amália, como ouvi, acabou a cantar o Fado no Olímpia de Paris, o Benfica acabou a aventura europeia, com um baile no Olympiacos de Atenas. Um fado comum, um triste fado com sotaque. A bem da Nação.
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