Clube de Venda Nova: Lugar idílico, inspirador e muito relaxante
Estavam as palmeiras da Avenida frondosas, pujantes, quando começaram a arrancá-las impiedosamente. “Quando se fala na plantação de árvores que são o pulmão indispensável, em vez de as plantar, arrancam-nas” disse, desgostoso, o Joaquim Sem Vento, de Agadão. “Não se sinta incomodado”, disse a Arquitecta Mar e Lenha - porque não se trata de desflorestação, mas de transmudação arbórea, isto é, a deslocação ou emigração de árvores, ou arborescentes, de uma localidade para outra, com o doloroso arrancamento das raízes”. E começou a chorar. “Mas para onde é que elas vão?”. “Algumas vão para a beira do rio, lugar idílico, inspirador, relaxante. Outras, mais infelizes, coitadas... vão para o barulho da pista de motocross”. “Mas replantar palmeiras no meio dos pinhais, só se for para estabelecer o contraste entre uma planta tropical, nobre e altiva, e um humilde pinheiro bravo e torto e ainda por cima a sofrer de anemátodo, doença incurável e incapacitante”, comentou, com solenidade, o Sem Vento. “Não, não é... – respondeu a Mar e Lenha – criamos lá um mini-jardim botânico. Já temos mato, silvas, carqueija e várias plantas da família das rosáceas, spartium junteum, mais conhecida por giesta, carvalhos, quercus rasteiros, etc...”. “Se é assim, estou contente porque tenho vivido para as árvores sem nada exigir delas, só quero o rendimento dos pinheiros e dos eucaliptos”, responde, de sorriso aberto, o Sem Vento.
*** Foi aprovado o estudo de impacto ambiental e o trajecto da futura auto-estrada IC2 e começou a pensar-se nas expropriações e das curvas que ela tem que dar para passar entre as casas e para se desviar das fábricas da Mourisca e de Aguada de Baixo. Ao que se vê as faixas da nova via vão passar ao lado de habitações ou mesmo por cima delas. “Já vi o projecto e estou incomodado...”, vociferou o Nelson Soimpas. “A estrada vai-me passar em cima da casa, num viaduto. Não vou conseguir dormir, tenho medo que se abra um buraco no piso e me caia um camião em cima, como aconteceu no Casaínho, tenho que ser compensado”. “Pois é ...– disse o Gil Pedalais – mas para desviarmos a estrada , só para não passar por cima da sua casa, íamos passar por cima de outras...”. “O melhor era fazerem um túnel que entrasse na Mourisca e saísse na Malaposta ... Se calhar é muito caro”, disse o Soimpas. “Mas se persistirem nessa ideia, ao menos têm que me arranjar um elevador para levantar o carro para eu entrar na auto-estrada e não pagar portagem!”, acrescentou. O Brás dos Kiwis estava atento e logo compôs o poema que se segue e que vai fazer parte do seu livro, que já está no prelo:
Vai passar a auto-estrada Num viaduto imponente E quem vai ficar contente Com tal obra de fachada É o Nelson da Soimpas Que sem ter que pagar nada Vai ter um elevador Que o seu carro vai pôr A andar na auto-estrada Que faça boa-viagem... Que é à borla a portagem!
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