Não foi uma queda; foi uma destruição. Se esta tivesse sido executada segundo um plano consciente, prévia e maduramente estudado, não teria sido mais completa. (…) É arrepiante, porém, a falta de sensibilidade e de coragem com que todos, ou quase todos, assistimos à lenta e inexorável destruição da mais bela e valiosa representação nacional de todos os tempos.» Estas linhas têm quase 40 anos e continuam actuais… A História repete-se muito mais vezes do que supomos
PORTUGAL DEIXOU
DE TER… DUENDE
Afonso de Melo
Pelos vistos, a História repete-se. Com muito mais frequência do que supomos. Duvidam? Pois comecem por ler estas linhas:
«Não foi uma queda; foi uma destruição. Se esta tivesse sido executada segundo um plano consciente, prévia e maduramente estudado, não teria sido mais completa. A arte de fazer mal também tem os seus génios, mesmo quando estes ignoram que o são. Façamos-lhes a justiça de reconhecer que fizeram obra perfeita. Nem de encomenda. É arrepiante, porém, a falta de sensibilidade e de coragem com que todos, ou quase todos, assistimos à lenta e inexorável destruição da mais bela e valiosa representação nacional de todos os tempos. Foi como se, em pleno meio-dia de Junho, numa praça pública da cidade, alguém tivesse sido longa e cruelmente seviciado, torturado, assassinado, sem que da multidão se levantasse uma voz de protesto, se estendesse um braço ou avançasse um peito em defesa da vítima. (...) Se eu ainda acreditasse em inquéritos, pediria que se procurasse saber se era permitido a um clube retirar, se adequada reacção dos dirigentes federativos, o treinador, o estádio e outros meios humanos e materiais julgados úteis, se não imprescindíveis, à preparação técnica e psicológica da selecção nacional, com a agravante de o facto se haver verificado poucos dias antes de um encontro de suma importância para os interesses e aspirações da equipa. Se eu ainda acreditasse em inquéritos, pediria que se perguntasse aos jogadores, especialmente aos mais experimentados, se, ou até quando, tinham encontrado, em certos mentores e respectivos métodos de trabalho, os mesmos motivos de crer e confiar que, três ou quatro anos antes, tinham estado na origem dos seus clamorosos triunfos. Se eu ainda acreditasse em inquéritos, pediria que se apurasse que parte representavam no apregoado “deficit” federativo de mil contos as despesas efectuadas com a selecção nacional, mai-las viagens, ajudas e outras alcavalas dos ilustres dirigentes que, aos dois e aos três de cada vez (como aconteceu agora em Londres) a acompanhavam por toda a parte, para lhe emprestarem o precioso estímulo da sua presença, o edificante moral dos seus exemplos e incomensurável sabedoria dos seus conselhos. Se eu ainda acreditasse...»Têm quase 40 anos. Foram assinadas em «A Bola» por Alfredo Farinha em 1969. Apenas três anos depois de Portugal encantar o Mundo no Mundial de Inglaterra.
Não aprendemos com os erros.
Depois do Mundial-2006, uma guerra surda de protagonismos dentro da Federação Portuguesa de Futebol minou o trabalho de Luiz Felipe Scolari, retirando-lhe ou minimizando os apoios que tinha na estrutura da selecção.
As traições foram grandes e graves.
A maior de todas na mesma noite do jogo frente à Sérvia: aproveitando a agressão do seleccionador a um jogador sérvio, a direcção da FPF reuniu-se de emergência com um conhecido empresário e pôs na mesa de José Mourinho um convite de verbas chorudas para que este aceitasse treinar Portugal de imediato. Depois forçariam Scolari a demitir-se.
Mourinho não aceitou e Scolari não se demitiu.
E a confiança morreu. Scolari era um homem só. E a prazo. Com as consequências anímicas visíveis no Euro-2008.
Escrevi não há muito tempo, num editorial de «Jornada», que a verdadeira luta desta nova Selecção Nacional, que passou das mãos de Luiz Felipe Scolari para as mãos de Carlos Queiroz, era com o… duende.
O duende. Lembram-se do duende? Garcia Lorca: «Teoria e Prática do Duende». Um texto extraordinário no qual fala de «um poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica». E citando Goethe que falava de Paganini, dizia: «Assim pois o duende é um poder e não um obrar, é um lutar e não um pensar. Eu ouvi um velho violinista dizer: “O duende não está na garganta; o duende sobe por dentro a partir da planta dos pés».
Toda a gente se recorda dos anos em que a Selecção Nacional era esse «patinho feio» do futebol português, uma «equipa de todos nós», como lhe chamou um dia Ricardo Ornellas, mas envergonhadamente de todos nós. Quem ia aos estádios ver a selecção ia de camisola vermelha, azul ou verde, levava bandeiras do Benfica, do FC Porto ou do Sporting, e as derrotas de Portugal não tiravam o sono a ninguém. Portugal era o clube nos intervalos dos clubes ou o clube dos sem clube…
Depois veio um tempo mágico. Portugal era o clube acima dos clubes. Havia nos estádios bandeiras vermelhas e verdes e não bandeiras vermelhas e bandeiras verdes. Havia a «Pátria em Chuteiras» como dizia Nelson Rodrigues. E tudo era espontâneo e natural. E, sobretudo, feliz.
Vivi por dentro o tempo de mudança absoluta. Orgulho-me de um trabalho árduo que foi feito por uma equipa de gente fantástica, dentro e fora do campo. Atravessei as dificuldades dos meses que antecederam o Euro-2004, as derrotas nos jogos particulares (que os imbecis da praxe consideraram fatais e absolutas), os insultos dos adeptos e, depois, aquela alegria indescritível que brotou da alma das pessoas quando perceberam que podiam contar com a sua equipa, ganhar com a sua equipa, sentir que era aquela, finalmente, a «equipa de todos nós». Quando leio alguns tontos escreverem que Scolari nada ganhou na Selecção Nacional, tenho vontade de rir dessa teimosia de beócios. Ganhou sim. Ganhou um povo inteiro a querer ser de Portugal, a dar mais valor às vitórias da selecção que às do seu próprio clube.
Lembrem-se dos jogos com a Inglaterra, com a Espanha, com a Holanda.
Lembrem-se do Euro-2004 e do Mundial-2006.
Portugal tinha duende! Era alegre, colorido, criativo. Até no momento das derrotas houve festa. Porque havia em redor daquela selecção uma aura de garra e de vontade e de capacidade para ir além das contrariedades que entusiasmava os adeptos.
Lembrem-se do triste empate com o Liechtenstein (2-2). E lembrem-se de qual foi a resposta a esse empate bisonho: 7-1 à Rússia. Era essa a forma de derrotar as adversidades.
«O duende sobe por dentro a partir da planta dos pés».
Agora, Portugal deixou de ter duende.
AFONSO DE MELO