In Memoriam
A partida de alguém deste mundo sem que se saiba ao certo qual o destino que espera cada um de nós - ou se há mesmo destino - é sempre motivo de profundo desgosto quando quem parte pertencia ao sempre pequeno mas firme escol dos amigos que nos acompanharam pela vida fora. Desgosto maior ainda quando a amizade de quem partiu foi sempre moldada por lealdade e dedicação sem limites. É um desses desgostos que acabo de receber ao tomar conhecimento da morte de um dos mais queridos amigos, um desgosto que não é menorizado mesmo por aqueles que acreditam no Além onde esperam continuar a encontrar-se e a conviver na vivência eterna, quanto mais por aqueles - como é o meu caso - que apenas acreditam que somos pó e nada mais. Pó mas saudade. Uma saudade infinita. Uma saudade, se possível e paradoxalmente maior, para os incréus, que não têm a convicção de alguma vez voltar a encontrar aqueles que usufruem a serenidade proporcionada pelo Paraíso, do que para todos quantos os que serão chamados após terem sido escolhidos. Escrevo estas linhas com a emoção provocada pela perda irreparável de um desses amigos, o Engenheiro António Castelo Branco, porventura personalidade pouco conhecida da maior parte dos que me lêem mas exemplo sem mácula de amizade resistente a todas as provações. Homem de uma dignidade imaculada, amigo do seu amigo, marido, pai e gestor exemplar, o António já estaria no Céu se Céu houvesse. E é por haver homens como o António que é pena e uma injustiça se acaso o Céu não passar de uma simples miragem. Quem terá sido o imbecil que disse que os homens não choram!? Adeus amigo. Enquanto continuar por cá – não te esquecerei.
D. MANUEL DE ALMEIDA TRINDADE
Faleceu recentemente também outro grande amigo, figura eminente do episcopado português, D. Manuel de Almeida Trindade, que foi bispo de Aveiro ao longo de duas décadas. Singular realidade esta que permitiu a minha estreita amizade com os três bispos que governaram a diocese aveirense enquanto participei activamente na política local, ou seja, de 1953 até 1974 - D. João Evangelista de Lima Vidal, D. Domingos d’Apresentação Fernandes e D. Manuel de Almeida Trindade. Singular realidade, escrevia, atendendo à minha assumida condição laica, condição que, naturalmente, desgostou os três, mas nem por isso impediu que me acarinhassem como se eu fosse o mais seguro dos crentes e os respeitasse como católico praticante. Quando em Agosto de 1970 festejei os meus 40 anos e ofereci um almoço na Quinta d’Aguieira a muitos dos meus mais chegados amigos, pude contar, entre os presentes, com D. Manuel Almeida Trindade que acabara de suceder a D. Domingos d’Apresentação Fernandes, falecido inesperadamente. Embora em pleno estio - faço anos em Agosto… - chovera na véspera a bom chover o que provocou o meu receio de não saber onde acomodar os meus convidados, uma vez que o almoço seria no parque ao ar livre. Passei, naturalmente, uma noite escura mas “em branco” como se costuma dizer quando as insónias tomam conta de nós. O meu nervosismo, que me levou a noite a olhar o Céu, provocou-me um torcicolo com dores alucinantes que suportei com visível sofrimento. Contra todos os “boletins” fornecidos pela meteorologia, a manhã despertou radiosa e o céu sem uma nuvem sequer! Deus levara em consideração as preces de minha mulher… Mas fosse como fosse o padecimento que se instalara no meu pescoço continuava a atormentar-me tão forte e visivelmente, que levou o ilustre convidado a exclamar: - Manuel José, meu filho, que foi que lhe aconteceu para estar sofrendo assim? - O senhor D. Manuel não faz ideia do que foi a minha noite! De tanto olhar para o Céu fiz um torcicolo terrível… Com visível intencionalidade e santa malícia, o bispo comentou agarrando-me com ambas as mãos: “Fez bem. O Manuel José tem olhado demasiado para a Terra…”. Grande amigo. Santo e sábio homem.
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