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País doente!...

por Manuel José Homem Mello em Junho 05,2008

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É realmente extraordinário que alguém, dobrado largamente o cabo do octogésimo aniversário e depois de uma vida tão plenamente vivida, sob todos o pontos de vista, a escassos meses de ter sofrido uma fragorosa derrota eleitoral capaz de “levar ao tapete” o mais aguerrido dos lutadores, ultrapassado eleitoralmente  pelo companheiro de longa data Manuel Alegre, a ponto de se ter erguido entre ambos um muro que não será da vergonha mas certamente de  profunda  mágoa, é realmente extraordinário, escrevia eu de início, que alguém nessas circunstâncias consiga provocar um reboliço político como aquele que acaba de se ficar a dever ao Grão-Mestre da Democracia Portuguesa.
Político integral, como nenhum outro ou como muito raros entre nós foi possível, divisar e reconhecer, Mário Soares apareceu (e não reapareceu, porque não chegou a desaparecer…)no exacto momento em que era mister que aparecesse..Tanto assim é que se tornou difícil discordar do que escreveu. Eu, pelo menos, não encontrei ninguém, :fosse  à direita, ao centro ou  à esquerda. Embora com argumentação por vezes diferenciada, a verdade é que ninguém foi capaz de negar a razão (ou as razões) que assistem a Mário Soares. Excepto numa coisa: os males que nos consomem não são culpa das correntes ideológicas que chegam até estas paragens, quase sempre décadas e décadas depois de outros as receberem e rejeitarem. São culpa de nós próprios.
Posto isto, será todavia, fundamental não esquecer que este mesmo homem que, aos 80 e tantos anos ainda é capaz de agitar as águas tranquilas (e salobras ) do lago político português, foi Primeiro Ministro e Chefe de Estado, ao longo de longos anos, sem que daí tivesse resultado praticamente nenhuma solução para os problemas que desde há muito nos afligem e estrangulam. Porque continua a ser muito fácil criticar, mas é cada vez mais difícil resolver e realizar.
E será também oportuno recordar que o mesmo dr. Soares não deixou de colocar na gaveta o seu socialismo, quando lhe pareceu que dessa decisão poderiam resultar benefícios para o país.  É assim que iremos transformando os sonhos em realidade.
Portugal - ninguém o ignora - é um pobre, pequeno,  e periférico país, escasso de recursos naturais, que deve a sua relativa independência à tenacidade daqueles que o habitam e ao circunstancialismo geopolítico que o beneficia. Em termos teóricos, não deveríamos ser mas, uma vez que conseguimos ser, só deixaremos de sê-lo à custa de muito sangue derramado, como ficou provado ao longo da História. É por isso que continuaremos a ser o que conseguimos, mesmo que um dia acabemos por deixar de ser. Poderá não haver milagres - e  eu sou dos que acreditam que não há. Mas se acaso os houver, geopoliticamente considerados, nós seremos dos muito poucos. E dos mais consistentes. É por isso que  Mário Soares é o que é  e vai sendo, enquanto for. Porventura, mesmo quando deixar de ser.
O país continua doente. Cronicamente, agudamente doente.  Estejam lá onde estiverem (pelo menos na nossa memória) o Portugal de Oliveira Martins, Ramalho, Eça e Herculano, continua como então já era. Soares apenas integra, século e meio depois, tão ínclita companhia.
Pobre e enfermo país à beira mar ressequido. n mjhm


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