ENSAIO: CRAVEIRO LOPES
Nas memórias da minha memória que tenho publicada, chega hoje a vez de recordar um episódio ocorrido com o marechal Craveiro Lopes, meu querido e saudoso amigo. Um episódio que já tive ocasião de narrar mas, por certo, ignorado da maior parte das pessoas, sobretudo das mais novas. No momento em que estava a procurar um tema para a crónica desta semana, eis que toca o telefone. Do outro lado da linha, a Ana Maria Xavier felicitando-me pelo que aqui escrevi na passada semana. Dando-lhe conta da falta de assunto que me atormentava, sugeriu-me que recontasse “a história com o Craveiro, quando ele confundiu vinho com água-pé”. Achei a ideia engraçada e aceitei o desafio. Pode ser que os mais novos também achem graça. Pouco tempo depois de sair da Presidência da República, incompatibilizado com Salazar, convidei Craveiro Lopes a passar um fim de semana na Quinta d´Aguieira, então minha propriedade. Aceitou com evidente agrado e tanto que outros se haveriam de seguir. Mas nesse primeiro, embora o ambiente fosse informal e familiar, entendi que deveria ceder-lhe o lugar à cabeceira que eu habitualmente ocupava. Para festejar a presença do ex-Presidente, procurei encontrar na “cave” o melhor vinho tinto que por lá houvesse. Por sinal, ”descobri” uma autêntica preciosidade, de 1936, em magnífico e “milagroso”estado de conservação. Uma autêntica relíquia. Procedi à decantação, como mandam as regras, e tomei as restantes e devidas cautelas, como teria feito o melhor dos escanções. Eu verificara já, no decorrer dos almoços que em Lisboa semanalmente repetíamos, que o marechal não era “forte” em gastronomia, nem se revelava particular apreciador de vinho: bebia moderadamente e de preferência «água-pé», em especial a que o seu velho amigo conde de Riba d´Áve lhe oferecia. Fosse como fosse, servi o «néctar» com os devidos cuidados e aguardei que o ilustre visitante se pronunciasse. Ao primeiro golo, o marechal “fez de conta” e eu, que o olhava de soslaio, senti uma natural decepção. Talvez se manifestasse ao segundo, quiçá ao terceiro, pensei com os meus botões… Qual quê !... Craveiro Lopes bebia a preciosidade com soberana indiferença, à semelhança do que fazia com a «miserável» água-pé do meu «colega» de Riba d´Áve! Pouco antes de nos levantarmos, com a “relíquia” prestes a ser consumida e no momento em que pela derradeira vez o marechal se preparava para o último golo, disparei-lhe olhos nos olhos: “Posso saber a sua opinião?”. Craveiro Lopes fitou-me com surpresa, indicando que estava a ser indagado sobre matéria desconhecida mas acabou por satisfazer a minha curiosidade: ”Olhe, caro amigo, se quer saber a minha opinião acho esta sua «água-pé» tão boa como a do Riba d´Áve. Só é pena não estar fresquinha…”. Caí das nuvens. O ilustre hóspede, afinal, não merecia que tivesse aberto e servido uma garrafa de tão rara qualidade. Decididamente, não era aquela a especialidade do meu saudoso amigo.
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