Agadão: Armando Lito
“Se lá no assento etéreo, onde subiste…”. Há pessoas que marcam indelevelmente a nossa vida. Havia nas Selecções do Reader’s Digest um artigo, em todos os números, intitulado “Um Tipo Inesquecível”, que eu lia sempre com muita curiosidade e interesse. Acontece que também tive, ao longo da minha já longa existência, alguns tipos inesquecíveis e que influenciaram a minha maneira de ser. Desses tipos inesquecíveis, quero referir particularmente o meu saudoso amigo José Maria Antunes, da Foz. O Zé Maria da Foz era conhecido pelo seu republicanismo e oposição ao regime que nos governou 48 anos. Lembro-me dos problemas que causava à “situação”, aquando das pseudo-eleições, pela fiscalização que procurava fazer. Recordo-me ainda que os dois únicos votos no general Humberto Delgado na minha freguesia foram o dele e o meu. E não era fácil! Posso dizer que o Zé Maria, o dr. Eugénio Ribeiro, o José Gonçalves de Oliveira Neves e Os Fidalgos da Casa Mourisca foram quem mais infuenciou na minha juventude, para fazerem de mim um democrata. Isto vem a propósito do falecimento do seu filho e meu querido amigo, Armando Antunes Lito, ocorrido a 29 de Abril, em Petrópolis, no Brasil. Eu ia frequentemente a casa do Zé Maria. Ainda éramos aparentados e o Armando, embora alguns anos mais velho, sabia dar-me a importância que um adolescente gosta de receber de alguém já rapaz já feito. O Armando sentia-se confinado neste meio, encravado entre serranias, no Vale da Ribeira de Agadão. O sonho de realização pessoal passava por outros horizontes e, assim que cumpriu o serviço militar, emigrou para o Brasil. A vida por lá passou por aquilo a que se bem pode chamar realização pessoal a diversos níveis: económico, familiar, social e intelectual. Foi agraciado com o título de Comendador, mas penso que só eu o chamava, às vezes, por “Comendador”, para brincar com ele. Tive ocasião de observar o quanto o Armando Lito era querido e respeitado, de um modo especial na Casa das Beiras, no Rio de Janeiro, onde foi presidente. Lembro-me da comoção que senti quando visitei, com ele e o Abílio, a sua velha mansão da estrada Velha da Tijuca e ver o espólio da sua também já falecida esposa e também minha querida amiga dra. Teresa. E digam que não há pressentimentos! Hoje, 19 de Abril, pressentia que havia alguma coisa que não ia correr bem e foi verdade. Ao meio-dia, toca o telefone. Era a filha, a Inês, a comunicar-me que o pai tinha falecido. Embora a morte seja uma inevitabilidade, não fui capaz de conter algumas lágrimas. Perdi um amigo inesquecível. Quero, contudo, deixar aqui expresso que os ideais políticos do Armando Lito não eram nada os do pai, nem os meus, o que era motivo de muitas brincadeiras entre nós. Eu, às vezes, dizia-lhe, citando o nosso Épico: “Do forte e duro Pedro nasce o brando”. Sabendo, como sabia, que o Armando Lito acreditava na imortalidade da alma, quero terminar com o resto da citação do célebre soneto com que comecei: “Memória desta vida se consente”. Não te esqueças deste teve amigo de toda uma vida e que perdoa por teres sido de direita e de me elogiares o Salazar, por “sacanice”.
1127 vezes lido
|