Lembrando Mário Sacramento
Os coordenadores deste livro não poderiam ter encontrado um título mais feliz do que LIVRO DE AMIZADE, porque na verdade se trata de uma antologia de textos sustentados por um sentimento de amizade que sobrepuja o apreço e admiração que todos sentiam por um homem cuja morte prematura deixou um amargo vazio em quem com ele conviveu, pessoalmente ou através da palavra. Mas este não é apenas um livro de testemunhos, é também um livro em que os textos de Eduardo Lourenço, Eduardo Prado Coelho, Eunice Vouillot, autora de uma tese de doutoramento sobre Mário Sacramento, Joaquim Correia, Óscar Lopes, Pedro Calheiros e Vergílio Ferreira percorrem ensaisticamente o pensamento de Mário Sacramento. Podemos dizer que este diversificado acervo de documentos mostra ao leitor quanto é verdadeira esta afirmação de Mário Sacramento: “o meu ofício, a minha arte, é a vida – mas é, em primeira mão, a vida dos outros”. Esse registo transparece de inúmeros depoimentos – o de um homem lutando abnegadamente pela emancipação dos humanos, por uma almejada pátria sem amos ou sem senhores e súbditos como dizia Sartre, sem desfalecimentos, com a consciência de que a “História é um que fazer incessante, e nunca ninguém viu ou verá tudo aquilo por que se bateu ou luta, pois algo fica sempre a meio caminho”. Na “noite ilegal”, como lhe chamou Soeiro Pereira Gomes, do fascismo, Mário Sacramento sofreu toda a sorte de ignomínias, de baixezas e aviltamentos, sempre com uma serena e discreta coragem, imune ao desânimo, mesmo quando a ordem de prisão (a primeira aos 17 anos) lhe batia à porta. De uma delas, a terceira, em 1955, Cecília Sacramento deixa-nos, neste livro, um testemunho impressionante: “os olhos do preso viram o que é bem visível: eu estava de péssimo aspecto, como é evidente. Nunca deveria ter feito aquela visita, que, ao fim e ao cabo, só foi deixar preocupações, onde já havia tantas. E eu vim outra vez para a casa grande e sem lume. Até que um parto prematuro veio confirmar a morte de uma filha que hoje não tenho. Quem ma matou? Quem? Sabendo-me em perigo de vida, pelo que observara na minha visita, como médico que era, meu marido exigira o que se lhe impunha, e viera, dias antes, para a cabeceira da minha cama, mediante o compromisso de voltar para a prisão, logo que a gravidade do caso passasse. A gravidade viera a ser ultrapassada pela morte. Ao outro dia deste desfecho, o meu Marido partia de novo, pelo seu pé, para a prisão. E eu vi-o partir. Como vira partir, horas antes, o pequenino caixão da minha Filhinha.” (p.38) De outro ângulo, é de toda a justiça salientar, como o faz Joaquim Correia, “a inteireza moral e intelectual de Mário Sacramento [que] teve neste aspecto que sofrer a incompreensão de alguns dos seus companheiros de jornada, que não eram capazes de esconder a estreiteza de vistas, ou, melhor dizendo, o sectarismo das suas posições. Mas, o ensaista e o cidadão sempre foram assim, porque, como escreve Eduardo Lourenço, “Mário Sacramento não precisou de revelações brutais e tardias para recuperar um sentido ‘humano’ que nunca havia perdido”. (p. 54). É este homem que aliou à precocidade do seu labor intelectual, social, cívico e político uma morte prematura, geradora de um inesperado vazio, que o LIVRO DE AMIZADE traz à luz dos dias de hoje. Nele está impressivamente retratado o amigo, o camarada, o cidadão, o político e o intelectual cuja obra “é, apesar de tudo, um modelo admirável de um pensamento intransigente, mas lúcido e atento, que nunca excluía nada do que se lhe opunha e que opôs a tudo e a todos, amigos e adversários, a generosidade de uma inteligência leal, corajosa e infatigável”. (Eduardo Prado Coelho, p. 67). (*) Edições Húmus, 2009 n Paulo Sucena
1689 vezes lido
|