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Opinião própria: Esse dia 17!

por Redacção Soberania em Outubro 28,2009

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No dia 17 de Outubro de 1982, o céu cinzento e baixo e uma chuva desabrida anoitecia precocemente a tarde em que Adriano Correia de Oliveira, meu irmão, descia à terra, no cemitério de Avintes, com quarenta anos feitos em Abril.
No dia 17 de Janeiro de 1992, passei por Águeda para um jantar de convívio com alguns amigos, em concelho limítrofe, na hora em que meu pai falecia, sem que nenhum de nós o soubesse. Quando a notícia chegou, o meu irracional desejo foi o de prolongar cada minuto até tornar aquela noite uma eternidade, na esperança vã de não me encontrar depressa com a brutal realidade.
No dia 17 de Outubro de 2009, cheguei a Águeda para prestar uma singela mas muito afectiva homenagem a um querido amigo, homem bom e solidário, tratado pelos mais íntimos por Carlinhos d’Arrancada. Tinha este encontro de sã e comovida evocação acabado há pouco, quando recebemos a notícia do terrível desastre de que foram vítimas dezenas de coralistas do Orfeão de Águeda e alguns seus familiares.
Malditos dias 17, que ou são de amargura ou me transformam a alegria em tristeza!
A notícia chegou com a informação de uma pessoa morta e vários feridos graves. Isso bastou para me estreitar o pensamento e pôr-me o coração a galope, devorando o tempo enquanto pela memória me passavam rostos amigos e meninos que eu vi nascer e crescer entre a Estrada Nova e a Rua da Cancela.
Assim, a viagem até ao hospital da Feira não gastou tempo, apenas somou angústias. Angústia que cresceu como onda de maré viva quando deparo com um pai com um olhar fundo como um poço de petróleo que, solitário entre a gente,  queria acreditar sem acreditar que a sua filha não tinha morrido. Era como um menino abandonado na margem de um rio, que aprendera e sabia que os rios correm para a foz, mas queria acreditar que aquele cuja água se enrugava em sentido contrário, tocada pela aragem da noite, corria para a nascente.
Mas a notícia acabou por chegar - gelada e inelutável: a Ana Paula morreu. Adivinho que algo paradoxal aconteceu então; aquele coração devastado pela dor acalmou ao deixar de se interrogar, minuto a minuto: se a minha filha está viva, onde está a minha filha?
A pouco e pouco, toda a realidade humana resultante do desastre chegava até nós, muito especialmente pela acção incansável, eficiente e solidária do presidente da Câmara de Águeda. Era um cidadão despido de qualquer fátuo poder, apenas um homem profundamente empenhado no seu trabalho de ser humanamente útil a todos que dele precisavam. Se a imagem da dor de um pai não me sai da memória, também nela fica para sempre a imagem de Gil Nadais, um homem a quem o ânimo e a esperança nunca faltaram, um homem em mangas de camisa, com o coração de luto, a lutar por todos que dele precisavam. Este é, para mim, muito mais um verdadeiro presidente de Câmara do que aqueles que se apresentam vestidos a rigor em momentos mais ou menos solenes.
Comovido e solidário, muito especialmente com os que mais sofreram com este desastre, apelo a que todos lutem contra o inferno de gritos, de dor, de pânico, de desespero que viveram na noite de 17 de Outubro.
É imperioso superar a memória amarga dessas horas de aflição, porque Ana Paula não ficou para sempre presa no minuto da sua morte. O seu sorriso afável, o seu coração franco e generoso, o seu dinamismo, a sua capacidade de direcção e execução, o seu amor ao Orfeão de Águeda projectam-se no futuro. É lá, nesse futuro, que canta a voz pura e cristalina de Ana Paula.
Amigos do Orfeão de Águeda, a Paula exige-nos que vamos ao encontro da sua voz! Com ela, com o seu exemplo, seremos capazes de fazer um Orfeão de Águeda maior e melhor.
n Paulo Sucena

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