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Requien por Ana Paula Silva

por Paulo Suena em Fevereiro 16,2010

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Em Arrancada do Vouga, sentado a mesa amiga, conversava com queridos companheiros de jornada como se o tempo não nos fugisse e a morte andasse longe. Porém, a notícia do desastre caiu gelada no meio da conversa e estilhaçou-a como se fora um martelo batendo numa taça de cristal. E logo o vento frio, que trouxe a notícia da tua morte, desarrumou a casa, abalou as nossas almas e pôs-nos de imediato a caminho do lugar onde a tragédia acontecera.
Como o poeta, há quem tenha mortos e os deixe ir, mas eu, que não sei como contrariar isso, escrevi o teu nome na esperança de ver pulsar nele a tua vida, e isso não aconteceu.
Apenas a melodia da “Valsa Triste”, de Sibelius, tomou mais dúctil a ligação entre milhões e milhões de células do meu cérebro, avançando de uma para a outra por acessos lentos,  enquanto uma recôndita dor subia, sufocante, as escadas do meu sangue que se transformou numa fonte de perguntas.
Por que razão não pressentiste que nenhum dos minutos daquela hora da noite do dia 17 de Outubro de 2009 fazia parte, como diriam os velhos helenistas, do teu Kairós, do tempo propício à realização de qualquer actividade tua, mesmo que uma rápida viagem de algumas dezenas de quilómetros?
E assim te sentaste na camioneta, sob o terrível silêncio de Deus, de que tantos se queixam, sem que fosses avisada de que, mais adiante, a tua alma se derramaria sobre o escuro asfalto de uma estrada desconhecida, sem tempo para te aperceberes que criavas uma inesperada solidão naqueles que amavam o teu modo de ser terno+o e generoso, fraterno e disponível, activo e solidário; um ser e um estar no Orfeão de Agueda que fizeram dele um projecto mais rico, mais humano, mais cheio de futuro.
Tu que não nasceste para morrer tão jovem, será que nos momentos em que a camioneta se inclinava perigosamente sobre um dos lados, fazendo-te despenhar no chão da morte, pudeste ainda, num breve instante, recordar a tua casa do Alto do Rio, placidamente pousada sobre o silêncio, o sorriso dos filhos e a infinita ternura do seu olhar, alimentada pelo teu amor de mãe, a afectuosa atenção dos pais nas horas difíceis da vida ou o bater aflito dos seus corações quando as doenças de infância cresciam dentro de ti como flores misteriosas? Ou será que morreste sob a pesada angústia de saberes tantos orfeonistas feridos e alguns e algumas tão gravemente?
Quem me dera pudesses regressar da morte para me responderes a tudo isso e também dizeres-me se foi a resina dos pinheiros, o calor do Natal, o rumor dos pássaros nos salgueiros do rio, a luz de uma velha igreja de Praga, a chuva triste do Outono ou a alta espuma das ondas em tardes de marés vivas que perpassaram pelo perplexo ecrã da tua memória.
Depois, ficaste muda de espanto, banhada apenas por um mar de palavras mortas, sabendo que os teus filhos, mesmo se esquecidos do teu olhar - gesto - palavra, continuarão a ouvir a tua voz ressoar dentro deles, abrindo-lhes no peito um poço vazio onde  só uma palavra nasce: saudade.
A morte levou-te e deixou em teu lugar a pesada palavra NÃO. Não mais serás a mãe, a filha, a irmã, a amiga, não mais serás a companheira do orvalho das manhãs, da cor rubra das acácias, do aroma das rosas, da sombra da buganvília, das teclas do piano ou das cordas do violoncelo.
Esse fulminante NÃO do nunca mais provém do étimo latino NON. Dele disse o Padre António Vieira: “Terrível palavra ê um ‘Non’. Não tem direito nem avesso: por qualquer lado que o tomeis, sempre soa e diz o mesmo. Lede-o do princípio para o fim ou do fim para o princípio, sempre é ‘Non’.
Porém, esplêndido é o teu nome - Ana - lido da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda é sempre Ana. Inteiro e uno se mantém, mesmo quando a ele se juntam os que faltam para seres tu e assim , íntegro, ecoa no coração dos que te amaram como se para sempre brilhasse na noite do mundo.
Por favor, esquece tudo isso, agora que dormes entre lençóis de silêncio de onde nenhum milagre te devolverá à vida, e olvida também as cantigas da tua infância, os violinos da adolescência, os ensaios do Orfeão de Agueda e tudo o que cantaste em noites luminosas no palco do Cine-Teatro S. Pedro, porque tu tens dentro de ti a tua própria música e sempre soubeste que no altar da alegria mora a hóstia da tristeza.
Sei que não é possível emendar a morte, por isso os mortos me pesam dolorosamente e eu procuro com humildade ser digno da sua grandeza e adivinhar os sinais fecundos que me oferecem na esplêndida passagem do dia e na fulgurante escuridão da noite.
Tu que te foste tão cedo embora, na matura idade, quando ainda poderias fazer crescer muitas searas, alimentadas pelo teu talento, pelo teu trabalho, pela tua generosa entrega às coisas da vida, tu deixaste, como não podia deixar de ser, o teu nome escrito na lira-símbolo do Orfeão de Águeda.
Sei que, com o tempo, o teu nome se cobrirá de musgo, como uma pedra à beira d’água, mas sempre o vento ou a brisa o trará até ao coração de todos que te conheceram e, sem pressa, ele chegará às nossas cabeças, levando consigo a bandeira do Orfeão de Águeda. Então, tudo faremos para sermos dignos dela c do teu exemplo de amor a uma causa. Quero dizer que estaremos assim em condições de olhar o futuro da velha colectividade de Águeda com esperança e confiança, porque mesmo estando tu ausente o teu nome resplandece no horizonte dos dias e das noites.                            
 PAULO SUCENA

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