Evocação de Ana Paula Silva e de Maria Antónia Roque
Confesso que não é sem alguma dificuldade que evoco hoje e aqui, a figura de duas mulheres que a morte levou na plenitude da vida, quando ainda tanto havia a esperar delas. Tanto que podíamos dizer que estamos perante duas vidas inteiras que poderiam ter sido e não foram. Insondáveis também são estes caminhos da morte, porque embaciados pela enorme injustiça de roubarem à vida quem, pela lídima qualidade das suas almas, estava tão desperta para ela que todos os anos pressentia o momento em que a Primavera oferece à terra a música livre dos pássaros. Escrevo os nomes de Ana Paula Silva e Maria Antónia Roque ou Maria Antónia Roque e Ana Paula Silva, sem cuidar que, no primeiro caso, os escrevi pela ordem alfabética e, no segundo caso, pela ordem das idades, porque os pronuncio a uma só vez, tão equânimes são na sua jovem morte. Mas o que aqui estamos a fazer hoje é oficiar à vida, sem desespero nem desolação, porque ambas nos legaram um formidável exemplo de humanidade, de competência, de entrega, de inteligência activa e solidária que deixaram nos breves anos que viveram um rasto inapagável e hoje são para todos que as amaram, que delas foram amigos, que apenas as conheceram, uma memória fulgurante ou, se preferirem, um fogo que dorme. Na sala desta velha colectividade, vão ficar, pelo tempo fora, os rostos de Ana Paula e Maria Antónia com a justiça que merece quem deu o melhor de si como dirigente, deixando no património histórico da “12 de Abril” o produto da sua alta competência no exercício das suas funções como Presidente do Conselho Fiscal e membro da Mesa de Assembleia Geral, de forma tão impressiva que, ainda hoje, a estrutura contabilística da colectividade é a que foi criada por Dra. Maria Antónia Roque. Por sua vez, Ana Paula Silva percorre um caminho singular para uma menina que passa a sua infância e adolescência, desde os idos de 60, numa pequena terra de província, aprendendo música na “12 de Abril” e integrando, mais tarde, a banda, sendo, se não me engano, a primeira pessoa do sexo feminino a fazê-lo. Num tempo que um dos mais interessantes ensaístas vivos designou por “era do vazio”, que se vem prolongando por estes últimos 25 anos, tão pobre de valores tão prenha de ferozes individualismos, o exemplo de vida, de solidariedade, de partilha com os outros, de entrega a causas que elegeram como relevantes em tantos domínios do profissional, do social e do associativismo, sem nunca descurarem o foro familiar, fazem de Maria Antónia Roque e de Ana Paula Silva duas mulheres que só nos podem suscitar a nossa mais alta admiração. Também aprendi a conhecê-las na intimidade das casas de seus pais, em momentos indispensáveis ao equilíbrio afectivo dos humanos na recusa da solidão - o tempo do almoço ou do jantar em que placidamente sentados a mesa amiga se come e conversa. Delas guardei a dedicada memória do seu discreto, mas amável e atento, para não dizer atencioso, modo de estar na vida. Esse traço de carácter as une. Um traço de carácter que vai nascendo e crescendo por influência familiar e, depois, se desenvolve em quem está atento ao terrível mistério de existir. Ambas souberam o que isso é e, por tal razão, não caminharam distraídas sobre o tempo, como uma folha ao vento, antes mergulharam conscientemente as mãos na vida para a tornarem mais rica para si e para os outros. A partir de hoje vão ambas permanecer redivivas nesta sala, numa fecunda harmonia de contrários - Ana Paula com o seu sorriso estuante de força e confiança e Maria Antónia com o seu olhar sereno perscrutando, discreta, o que está para lá do horizonte mais próximo. Percorremos com o olhar os dois retratos, impulsionados por aquilo que cada um guarda em sua memória do tão breve percurso de vida destes dois seres humanos de rara qualidade, e chegamos ao fim com a certeza de que falta alguma coisa que ficou no princípio. É que nenhuma delas se deixa somar, elas foram uma permanente multiplicação de si mesmas. Sei que nesta hora o que atravessa a sensibilidade de todos os presentes é algo parecido com o ritmo lento e lamentoso do adagio do 1º. concerto brandeburguês de Bach, introduzido pela melancolia do solo de oboé a que o violino corresponde, mas a esplêndida herança que Maria Antónia e Ana Paula nos deixam, obrigam-nos a despir as folhas da melancolia, a olhar em frente e a prosseguir e lutar contra os absurdos da vida e por aquilo que ela tem de inigualável. A morte de Ana Paula e Maria Antónia é mais do que uma perda, é uma exortação à vida. Façamos por merecer o seu exemplo. Águeda, 18 de Abril, 2010.
1709 vezes lido
|