O luto do Orfeão é o meu luto
No dia 17 de Outubro de 2009, partiste a caminho da morte e das suas ocas habitações deixando um álgido, dorido, arroxeado luto nos que sabiam que respiravas, feliz, o aroma dos dias que depois das grandes chuvas anunciam a Primavera e que olhavas, natural, os milharais de Travassô a ganharem o amarelo-torrado pelo Verão fora enquanto os lagares de outono esperavam, pacientes, o tempo da fermentação do mosto. Na plenitude da tua vida, sonhavas o futuro sem temer os insondáveis desvãos da noite, porque tu eras mais rútila que a rosa mais viva que a água viva mais ouro do que o ouro e eras canto e festa, amanhã e esperança, voz solidária sobrenadando a talagarça onde homens, mulheres e jovens bordam a música do meu velho e querido Orfeão de Águeda. A tua linhagem pouco importa, porque a tua vida foi igual à das folhas. Se o vento arranca algumas e no chão as espalha, ao vir a Primavera logo nascem mais outras. E tu és como a folhagem ou como uma pomba. Quando arrefece o coração das pombas desfalecem, na sombra, as suas asas… Safo, que amou a vida sob a luz da Grécia antiga, deixou-me a frágil verdade com que recuso a tua ausência: A morte não é um bem. Os próprios deuses o sabem. Eles preferiram viver… n PAULO SUCENA
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