ENSAIO: INÍCIO DA CAMPANHA
A redução de um ponto percentual na taxa do IVA e a substituição, pelo PS, de dois ministros (o da Saúde, por opção estratégica, e a da Cultura, por incompetência política) e a crise aberta frontalmente na liderança do PSD, escassos meses após ter sido renovada, são claros indícios de já se ter ultrapassado a fase das escaramuças pré-eleitorais para se entrar no que bem pode ser considerado como “abertura das hostilidades”. Tudo, assim, indicia que o período que a partir de agora decorrerá até ás Legislativas seja acidentado e, “politicamente interessante” na conhecida expressão amiudadas vezes utilizada por Mário Soares. As diversas “moções de desconfiança” que choveram de Norte a Sul do país, pondo em causa a capacidade de Luís Filipe de Menezes vir a ser o principal adversário de José Sócrates, tornaram inviável a manutenção do presidente da Câmara de Gaia à frente do primeiro partido da oposição. Não deixa de ser extraordinário que o líder do partido, embora eleito directamente pelas “bases”, se veja na contingência de abdicar, rejeitado por significativa fatia do eleitorado afecto ao seu próprio partido. Os motivos que conduziram a essa rejeição tornam-se difíceis de explicar. Mas o que não deixava dúvidas era a convicção generalizada de que o dr. Luís Filipe de Menezes não era, nem é, o adversário capaz de desalojar o eng. Sócrates da chefia do Governo. È que o “princípio de Peter” aplica-se como uma luva à actividade política. Pode-se ser um excelente autarca. como revelou o dr. Menezes, e nem por isso possuírem-se as qualidades exigidas a um chefe de Governo. Poderemos até ir mais longe, reconhecendo que a inversa também é susceptível de aplicação: um bom Primeiro Ministro não será necessariamente um bom presidente de Câmara, da Câmara de Vila Nova de Gaia… O exemplo mais flagrante, aliás, da aplicação do “princípio” ao invés, ou seja, de cima para baixo, encontramo-lo no doutor Mário Soares que foi um grande Presidente da República mas não tão bom Chefe do Governo. Goste-se ou não, o engº. Sócrates tem todas as condições para repetir a maioria embora com grande dificuldade possa vir a ser absoluta. Mas o PS tem armadilhado habilmente os escaninhos do poder, de modo a ultrapassar as enormes dificuldades que juncam o caminho. O PSD só poderá ter alguma hipótese de êxito se conseguir encontrar um novo líder carismático, ao estilo Cavaco Silva que reúna à sua volta não apenas os barões assinalados mas também a arraia miúda da militância partidária. Todos não serão demais para “chegar a Garcia”. E mesmo sendo todos, arriscam-se a ficar pelo caminho… Porque não é só no Céu que muitos são chamados e poucos acabam por ser escolhidos. Na Terra também.
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