GATO ESCALDADO
Quando éramos adolescentes, lá pelos longínquos anos 50, chamávamos a Américo Tomás o corta-fitas e aprendemos essa designação com os do “reviralho”, como vulgarmente se chamava aos que militavam na oposição e que, ao tempo, para denegrirem a figura do Presidente da República, desacreditarem as estruturas do Estado e afrontarem o governo, propagandístico, diziam eles, arranjavam figuras de estilo, se não insultuosas, no mínimo jocosas e com epítetos que nós, novatos e irreverentes, usávamos e repetíamos sempre que queríamos afrontar os defensores do regime “fascista”. No alvor de Abril, pensávamos nós terem acabado os corta-fitas, mas foi puro engano, porque eles não só não acabaram como até se multiplicaram. Só os tempos e os nomes das coisas mudam, o resto fica igual! Há dias, púnhamos em dúvida a rápida efectivação da ligação Águeda//Aveiro, ao perguntarmos, na nossa croniqueta, se a obra anunciada no fim-de-semana anterior, em Mortágua e pelo Primeiro-Ministro, era a sério ou apenas mais uma promessa “eleiçoeira”. Estávamos longe de imaginar que, em pouco mais de 24 horas, o ministro da tutela, com uma aparatosa comitiva, se deslocasse a Águeda para “benzer” a primeira pedra. Porquê a cerimónia em Águeda e não em Aveiro, já que a ligação é Águeda//Aveiro? Remorsos, porque consideração por Águeda não será! E porquê tanta pressa, se nem sequer se fez ainda a abertura do concurso, distante ainda mais está o auto de consignação e ainda sem se ouvir o roncar das máquinas? Todavia, um acto com direito a presença televisiva e honras ministeriais! Não há dúvida que os governantes são mestres em matéria de disfarce e propaganda! Disfarce, porque tanta pressa em lançar a primeira pedra numa obra que não sabemos quando nem se vai começar, tem uma única leitura: é mais pela necessidade de calar os protestos do povo e da própria autarquia pelas desconsiderações de que Águeda tem sido vítima por parte do governo e menos para responder a velhas necessidades deste concelho, reais e visíveis! Propaganda, porque as eleições aproximam-se e eles sabem bem que, em Águeda, ainda não mexeram uma palha desde que são governo, além de saberem que, com o concelho marginalizado, como tem estado, criam um enorme desconforto ao presidente da autarquia, que se sente defraudado, dão trunfos à oposição e Águeda pode muito bem arrepender-se do sentido de voto das últimas eleições e corrigir a sua orientação nas próximas, porque o povo perde tudo menos a memória e já não adormece ao som da música celestial dos partidos! Seja o que for que aconteça, esperamos ver as máquinas em movimento e, se for caso disso, faremos a festa e deitaremos os foguetes, quando vier o corta-fitas. Mas, como gato escaldado, tememos que a obra fique para as calendas gregas ou, pior que isso, mude de sítio, à semelhança de outras surpresas com que temos sido presenteados. Que ao menos não argumentem falta de espaço! E já agora, porque não aproveitar para concluir a tão prometida quanto apregoada, e já iniciada há um bom par de anos, ligação à auto-estrada? Talvez seja uma boa forma do Governo se reconciliar com Águeda! a.a.silva 2008-04-09
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