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OLHEM QUE É LOUVÁVEL LEMBRAREM-SE DE NÓS!…

por Redacção Soberania em Abril 02,2008

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Num grande aglomerado de gente, falava e gesticulava, animado, o João Piedoso. E proclamava:
“Nem tudo são desgraças, nem tudo é negativo. Tiraram de cá o Tribunal para calar os de Anadia e agora, para nos calar a nós, anunciaram uma obra que há muito ansiávamos para nos tirar do isolamento…”.
“Deve ser uma obra de vulto!”, disse, em surdina, o Figueira Parado, abrindo os olhos até às orelhas.
“Temos que fazer uma manifestação, mas de regozijo, não de protesto”, continuou o Piedoso, acrescentando: “Sempre vão abrir a via rápida Águeda-Aveiro e vejam que ela começa na Guístola, para  atravessar o concelho todo”.
“Vai abrir e ainda nem começou?!...”, exclamou o Carlos do Jacinto d´Almada.
“Quer dizer, vão abrir o primeiro buraco, a primeira enxadada e, se Deus quiser, muitos de nós, os mais novos, ainda vamos assistir à inauguração!”, diess o Piedoso.
“De qualquer modo, é louvável lembrarem-se de nós - continuou o Jorge Enfermeiro - enquanto discutem o projecto amenizam o nosso sentimento de quase insularidade”.
“Exactamente - continuou o Piedoso - é por isso que, para que não fique tudo na mesma, deveremos fazer grandes manifestações populares, com Zés Pereiras, cabeçudos, bandas, endireitadelas do pau várias vezes por ano…”.
“E buzinões! Mas o buzinão não pode ser só num tom, que é de repúdio, tem que ser, pelo menos, em três tons...”, alertou a Excelsa da Corga. E mais disse: “Quem não tiver buzina tem que comprar uma corneta”.
“Acho bem, porque é uma obra ciclópica, nasce na Guístola de Agadão, vem por aí a abaixo numa estrada de cimento de quatro faixas e um funicular para peões, para não haver engarrafamentos”, informou o Gil Pedalais, enfático: “Passa por Alvarim, passa debaixo do Casainho e de Cabanões e segue em túnel sob a Pateira até Mamodeiro. Uma beleza!...”.
O Zé Oliva, que também ali estava, passou a mão na calva e disse descorçoado:
“Aqueles tipos são tolos, vão passar a estrada por debaixo da terra e eu fartei-me de comprar terrenos cá em cima! Agora o que é que eu faço aos terrenos?  Nem me vão deixar plantar árvores, porque as raízes não deixam passar os automóveis!”.
** * ***
O Zé do Candeeiro vinha a descer a Avenida das Palmeiras, meio zaranza, a balbuciar monossílabos e a olhar para as nuvens chovediças.
“O que é que tem?”, perguntou o Joaquim da Trigal.
“Venho a pensar... Fui ao Predial, estava lá o Gil Pedalais e alguém me disse que ele estava a tratar do CU...”.
“Do quê?!”, exclamou o Trigal,
“Do CU. E pensei: ou eu me enganei e estava na sala de espera de um médico internista ou estava tudo tolo! Estava lá sentada uma menina e perguntei-lhe se também estava a tratar do CU. E ela, deu-me com uma pasta de livros que até fiquei assarapantado. Poxa!... Depois é que me explicaram que CU é o Cartão Único!
O Rolim Stones que ia a passar, explicou: “Para evitar complicações dessas, já lhe mudaram o nome. Agora chama-se CC, o Cartão do Cidadão!...”.


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