PARA OS CALAR, OFERECERAM-LHE O TRIBUNAL
Águeda cantou de alegria e justificado orgulho. O presidente do Clube até tinha programado uma missa de acção de graças. Finalmente, o tribunal de círculo, que estava sediado em Anadia, ia ser transferido com novo nome para esta cidade, que faz parte da futura comarca do Baixo Vouga. Os advogados, os magistrados e os funcionários judiciais rejubilaram! Sempre eram dignificados com a elevação do tribunal. O cidadão comum podia, a partir de agora, contar com a justiça ao pé da porta, não tinha que se deslocar tão longe para as questões difíceis. Mas, a certo momento, começou a correr pelos mentideros que, afinal, não era verdade e a maior valência teria contemplado Anadia. O Lenine de Falgoselhe, visivelmente indignado, vociferava na esplanada da Trigueiral: “Isto é inadmissível e uma falta de respeito pelas cores da nossa bandeira. Só espero que os juízes tenham o gabinete em Anadia, mas ao menos continuem a vir cá fazer os julgamentos”. “Pior ainda, bem pior, estão os de Sever de Vouga e os de Albergaria, que para irem para Anadia até têm que passar por aqui...”, disse o dr. Pedro Preto. “Eu sei porque é que foi para Anadia - continuou a drª. Vera de Avelãs - os de lá começaram a fazer barulho, por causa das urgências, andaram em manifestações e buzinões, em comícios de carro e a pé, fizeram tanto barulho que, só para os calar, ofereceram-lhes o tribunal...”. “Agora, entendo - respondeu o Lenine - mas se fosse um governo da minha cor, que agora nem sei se é laranja, se é azul….”. “Eu também não sei bem, se é azul em tom laranja, se é laranja em tom de azul, e as setas não sei quantas são nem para que lado estão viradas - continuou a drª Paula Franqueza - parece que é só uma e é de lata!...”. “Por falar nisso, até já aconselhei o Figueira Parado a recolher as bandeiras, as esferográficas e os aventais do partido com a cor antiga, vamos ter um grande prejuízo,,,”, disse o Lenine. “Pois é... - concluiu, triste e pesarosa a Paula Franqueza - antes queria não ter cá tribunal nenhum do que me fazerem a desfeita de mudar o símbolo e as cores do partido!...”. O Egberto das Canas, que estava na mesa ao lado e ouviu a conversa, levantou a voz e exclamou: “Nós em Águeda, não temos ninguém, nem nenhuma força política, perdemos tudo, é uma vergonha. Temos que fazer como os de Anadia, ir para a rua buzinar e gritar: “Queremos o Tribunal, a bem ou a mal”..., “ a luta contínua, ministro para a rua”…- Asim!!!...!. O Brás dos Kiwis, que vinha da biblioteca, onde tinha estado a fazer pesquisas bibliográficas para o seu novo livro de poemas históricos, ao ouvir o Egberto, exclamou: “O quê? O nosso tribunal vai para Anadia? Eu também alinho na manifestação, não podemos deixar sair daqui o edifício mais lindo que Águeda tem!...”.
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