O COMA POLÍTICO DE FIDEL CASTRO
Na sequência da tentativa de assassinato do presidente de Timor, a generalidade das pessoas mais ou menos ao corrente do que se vai passando por este mundo fora, ficou a saber que há diversos «comas» ou estados comatosos, como se prefira dizer: coma clínico, coma irreversível, coma aparente, coma superficial e assim por diante. Haverá ainda o coma psicológico, o aparente e até mesmo o voluntário e o induzido, como foi o caso do presidente Ramos Horta. Pois bem: tendo chegado à conclusão de que o poder solitário que usufruiu ao longo de quase meio século lhe fugia debaixo dos pés e não estando indubitavelmente reunidas o mínimo de condições de continuidade, Fidel de Castro decidiu, em momento de peculiar lucidez, abandonar o poder ou, pelo menos, induzir um «coma político» irreversível que o afasta, sem retorno, do vértice da pirâmide política que construiu. Quer se queira quer não a retirada de Castro constitui uma efeméride com repercussões nos mais variados cantos da terra. Bem mais pelos erros e pelas barbaridades que cometeu do que pelo muito pouco de bem que realizou. Manda, porém, a verdade reconhecer que apesar das execuções iniciais de centenas e centenas de compatriotas, apesar do nepotismo que desencadeou e aplicou, apesar da montanha de foragidos que provocou, apesar da ausência de liberdade cívica, apesar do exercício despótico do poder solitário, etc., etc., manda a verdade reconhecer que Fidel de Castro logrou tornar-se, paradoxalmente, uma espécie de porta estandarte de muitos que por esse mundo fora clamavam e clamam por uma sociedade mais justa, mais solidária e mais fraterna. Mas o pouco de aceitável que realizou desvanecer-se-á na cavalgada do tempo sem deixar qualquer motivo para ser positivamente recordado. E se mesmo assim for lembrado de quando em vez, sê-lo-á mais como exemplo do déspota do que do estadista merecedor de admiração e aplauso. n mjhm - Director Honorário SP
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