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Realmente extraordinário

por Manuel José Homem Mello em Julho 06,2011

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Se alguma dúvida ainda houvesse quanto à precariedade daquilo que apelidamos de JUSTIÇA, a evolução do caso protagonizado pelo ex-director geral do FMI levar-nos ia a reconhecer que a apreciação e o julgamento dos homens pelos  seus semelhantes  é,   porventura,  o mais imperfeito dos sistemas que a humanidade criou no intuito de paradoxalmente permitir uma convivência civilizada entre aqueles que a constituem.
Na realidade, não decorrerá um só dia sem que por esse mundo fora seja invocada a palavra «Justiça» despida do devido e apropriado contexto. É na tentativa - quantas vezes bem intencionada - de se aplicar a JUSTIÇA que se cometem as mais flagrantes injustiças, a maior parte das vezes irremediavelmente «transitadas em julgado».
Os erros judiciários são de tal monta, qualitativa e quantitativamente, que a «justiça das injustiças» assumiu o bem pouco invejável pódium do desprestígio que só pede meças à actividade política. Quer além, quer aquém-fronteiras. Bastará termos presente dois casos paradigmáticos. Perto de nós, o chamado caso Casa Pia; mais além, o escândalo protagonizado por Dominique Strauss-Khan.
Quanto ao primeiro, assistiu-se ao interminável depoimento de um sem número de testemunhas e numerosíssimas intervenções dos advogados e dos magistrados, que acabaram por preencher milhares de páginas processuais sem que até agora se revelasse possível, aos juízes e ao público, em geral, extrair uma conclusão segura relativa aos factos que constituíram e constituem os fundamentos da acusação. Quando a sentença for lavrada - se algum dia chegar a sê-lo…-
ninguém se espantará se, em vez dos réus, forem as supostas vítimas a ser condenadas. O mesmo poderemos dizer, no que toca ao processo DSK, no qual o réu, alegadamente apanhado em falso ou lá o que quer que seja, poderá terminar pela condenação da queixosa. Não haja dúvida: o Direito continua cada vez mais torto.
Sem quaisquer provas indesmentíveis, as pessoas são condenadas pelas opiniões públicas lançadas às matilhas esfomeadas de ódio, constituídas por gente insaciável e indigna da condição humana.
A imagem do director geral do FMI algemado e enquadrado por uns tantos seguranças, dificilmente poderá apagar--se das retinas dos milhões de olhos que presenciaram o doloroso espectáculo. Por ter sido acusado um tanto ou quanto levianamente de abuso
sexual, na pessoa de uma empregada da limpeza do hotel onde se hospedara,  DSK,  viu cair-lhe sobre o pescoço a ameaça de uma espada de Damôcles,
equivalente a qualquer coisa como 75 anos de prisão! Com a mesma desenvoltura com que o fizeram descer ao inferno da ignomínia, assim reconheceram o exagero em que tinham caído, ilibando praticamente o acusado dos crimes que teria cometido! Não me admiraria que DSK acabe por ser o próximo Presidente da França. Final feliz de um filme de terror.
n M. J. HOMEM DE MELLO
Director Honorário SP


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