SALAZAR SERIA FASCISTA?
O termo fascista entrou no léxico comum, como uma arma de arremesso contra quem não gostamos e pelos motivos mais banais.
Confunde-se até, com regularidade, fascismo com exercício de autoridade e com comportamentos menos recomendáveis. Oliveira Salazar tem, ultimamente, andado nas bocas do mundo, seja com antípoda dos políticos actuais, seja como referência nostálgica dos saudosismos inconsoláveis. Rotulado de fascista por uns e de salvador por outros. Quem foi Salazar? Seria fascista? Segundo alguns académicos, o fascismo “é uma forma cruel e bárbara de niilismo”, sem qualquer coerência de ideais ou ideologia. Segundo outros, “uma forma de autoritarismo que é reaccionário, respondendo a desenvolvimentos sociais e políticos, mas sem qualquer objectivo, para além do exercício do poder”. Porém, para todos esses académicos, o fascismo tem em comum três elementos: o anticonservadorismo, o mito da renovação étnica e nacional e a concepção de uma nação em crise.
As influências
Salazar nasceu em Santa Comba Dão, em 1889, filho de gente do campo, de origem muito humilde. Num seminário se fez homem. Cresceu numa época de grandes crispações, com o Ultimatum inglês a deprimir a Alma Pátria, com as convulsões republicanas e jacobinas a fazerem mossa na monarquia, com o regicídio de 1908, promovido pela Carbonária, com a implantação da República e o fundamentalismo anticatólico de Afonso Costa, a perturbar o conservadorismo jesuíta e o assassinato de Sidónio Pais, único presidente da Republica eleito, em 1919. Um mundo lusitano convulso, agitado por assassínios políticos, perseguições e saques. Viveu numa sorumbática república coimbrã, onde tinha por amigo e confidente, o futuro Cardeal Cerejeira. Dizia então o cardeal, a propósito desses tempos: “Quando íamos os dois à missa, em Coimbra, íamos de moca sobre a capa e o mais que se não via”. Esteve para ser padre, mas as saias deram-lhe a volta à cabeça. Não foi padre, mas foi primeiro-ministro, em 1932, a convite do marechal Carmona. E levou na sua pasta, a Enciclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII (1891). Num ambiente caótico e financeiramente deprimido. Um excelente caldo para o exercício de uma política autoritária e anti-liberal, liberalismo esse, normalmente associado ao mundo maçónico e jacobino. Salazar tinha da democracia um conceito demolidor. Dizia ele: “o mundo está a viver em permanente desvario. As massas fluem da anarquia para ditaduras ferozes e os homens públicos parecem julgar que podem defender o supremo bem dos povos - a ordem - com o seu liberalismo”. André Bachoud definiu o Estado Novo, como o “nacional-catolicismo”. Segundo José Freire Antunes, no seu livro “Os Espanhóis e Portugal”, fonte inspiradora desta crónica, Salazar “aplicou politicamente as encíclicas de Leão XIII e Pio XI, ou seja, luzes doutrinais amortecedoras do totalitarismo fascista”. Aliás, nem o caudillo, Francisco Franco, morria de amores por Salazar. Queixava-se ele: “Aquela é uma ditadura branda e débil. Eu até já disse a Salazar: Falta ao seu regime fervor e vibração.” O poder, então como hoje, era congeminado no interior dos templos. Secreto e misterioso. A Opus-Dei, tentáculo da alguns sectores do Vaticano, berço de políticos católicos e conservadores e a Maçonaria, fermento de vários caldos, com um denominador comum: a gestão concertada do mundo financeiro e político. Salazar era, porém, um solitário e dispensou concertos. “As organizações que trabalham a latere, no terreno político ou social, não merecem a minha confiança”. Nem a dele nem a da PIDE, que, segundo Freire Antunes, sendo “vocacionada para a perseguição dos membros do Partido Comunista, encarava a Opus Dei como uma ameaça subversiva”.
Neutralidade portuguesa
Salazar, com Dolfuss, da Áustria, foi precursor das doutrinas totalitárias que se implantaram pela Europa fora. Mas não se envolveu nelas. Por razões ideológicas e de independência nacional. Aljubarrota era o estigma e a inspiração. De Espanha nunca vinha bom vento nem bom casamento. Franco Nogueira era o paradigma do medo: “Não se pode deixar de admirar a Espanha, mas não se pode deixar de recear a Espanha”. E havia muito boas razões para terem medo. Já Francisco Largo Caballero, líder do PSOE nos anos 30, dizia: Portugal deve incorporar-se na nossa Federação (a planeada União das Repúblicas Socialistas Ibéricas), se possível, de maneira pacífica, mas, se necessário, pela força”. Mais subtil, acrescentava Cláudio Sanchez-Albornoz, embaixador espanhol: “Elogiei a obra portuguesa do passado… e citei as palavras de Camões: Portugueses e castelhanos, porque espanhóis somos todos”. O início das hostilidades que desembocaram na 2ª. Guerra Mundial, colocaram a diplomacia nacional em polvorosa. Dizia o nosso embaixador em Espanha, Teotónio Pereira: “Os espanhóis agitam-se como lobos, que, num jardim zoológico, à beira do mato, ouvissem os uivos dos seus iguais em liberdade, correndo impiedosamente sobre as presas”. E a presa desejada, seríamos, naturalmente, nós… Felizmente para nós, que a Espanha era um lobo faminto, ainda ferido pelas enormes chagas da guerra civil que lhe tinha ceifado a vida a meio milhão de homens. Mas lá ambição, tinham eles. Ainda negociaram secretamente a sua entrada na Guerra, com Hitler, em Setembro de 1940, a troco das nossas ilhas. Dizia Franco: “Ainda entre as ilhas existem Madeira, Açores e as ilhas de Cabo Verde, onde, sem ferir interesses do nosso aliado, se pode fazer o mesmo”. “Uma cultura de arrendatário”, como definiu Freire Antunes. Mas, para nosso bem, os nazis não estavam para ali virados, pois o seu interesse centrava-se mais em Gibraltar, abrigo de um qualquer desembarque africano.
Indepedência deve-se a Stalin
Portugal era aliado dos ingleses e era um bom fornecedor de volfrâmio dos alemães. Confiava Goebbels, ainda em 1943: “Enquanto Salazar estiver no poder em Portugal, nada de realmente hostil se fará contra nós”. Já os ingleses não estavam assim tão convencidos, com uma caterfa de planos de desembarque em praias lusas por cumprir. Disso deu conta, a 20 de Junho de 1940, o adido militar inglês em Espanha ao nosso embaixador Teotónio Pereira: “Disse-me que considerava iminente a invasão de Portugal”. Porém, surpresa das surpresas, a Stalin se deve, a independência de Portugal. Conforme Snachez-Bella: “Foi Stalin que evitou a invasão, ameaçando os aliados: “Se abrirem a frente da Península, que não aliviará a pressão das divisões Panzer sobre a Rússia, eu faço a paz com a Alemanha”. Foi essa ameaça de Stalin, que evitou a tragédia na Península”. Abençoado sejas por isso, Joseph Satlin. Louve-se a frieza e o sentido de Estado de Oliveira Salazar, neste conturbado período. Desmistifique-se, porém, a real influência que este pequeno país teve, nos nossos salvaguardados destinos. A nossa independência, hoje mera figura de retórica, muito deve a muitos grandes homens, mas acima de tudo, a esse caprichoso destino, perturbador das lógicas e das mais genuínas vontades. Bendita sejas, velha Albion, por essa matreira aliança que nos tem garantido esta liberdade condicionada. n Nelson Leal
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