REGRESSO A BELÉM
Seriam exactamente onze da manhã, de um dia da passada semana, quando franqueei o portão do palácio presidencial que dá acesso às visitas privadas do Chefe do Estado, meia hora antes da hora marcada para a audiência presidencial. Tempos houve que frequentei assiduamente aquelas paragens, primeiro já no ocaso presidencial do general Craveiro Lopes mas, sobretudo, ao longo do decénio durante o qual o Doutor Mário Soares exerceu a primeira magistratura. Posso acrescentar, sem laivos de estultícia, que ali me cheguei a sentir como peixe na água. Enquanto o sucessor do grão-mestre da democracia portuguesa foi hóspede do local, somente uma vez voltara ao palacete (chamar palácio à residência oficial do nosso presidente parece-me exagerado…) e mesmo assim apenas em termos virtuais, no decurso da crise que levou à demissão do governo de Santana Lopes, “ visita “ que imaginei no intuito de emitir a minha modesta opinião acerca do momento político que se atravessava. O “Diário de Notícias”, então dirigido por Fernando Lima, teve a generosidade de dar acolhimento ao que sobre o caso me atrevi a escrever. Foram dez nos de “jejum” presidencial. Não se pode ser persona grata de todos os presidentes… Seria de esperar que as “coisas” se alterassem, ipso facto, com a chegada de novo mandatário. Infelizmente tal não aconteceu. Circunstâncias um tanto ou quanto obnóxias (que prefiro procurar esquecer, embora sem deixar de bater no peito pela minha culpa minha máxima culpa…) conduziram ao prolongamento do “jejum”, só agora (mais de dois anos decorridos sobre a posse do novo Presidente) se ensejando o regresso àqueles vetustos mas dignos salões. Fico a dever à generosidade do prof. Cavaco Silva o acolhimento, o fidalgo acolhimento, que entendeu dispensar-me. Não poderei dizer (como é de uso quanto à amizade: que não se agradece mas retribui-se) não poderei dizer, que retribuí, ou retribuirei, um dia essa generosidade, na medida em que é infungível ao invés da estima, mas poderei e deverei publicamente fazer-me eco do contentamento que a audiência concedida pelo Presidente da República me provocou. Tenho pena de não poder revelar o conteúdo da conversa que mantive com o Prof. Cavaco Silva, por ser da regra protocolar considerar confessional o que se “murmura” entre um Chefe de Estado e aqueles que por ele são recebidos. Mas creio que me seja lícito acrescentar ter sido, pelo menos para mim, uma meia hora de rara e aprazível afabilidade. Para além do “tom” haver excedido as minhas melhores expectativas. E nem sequer poderei dizer que reencontrei o homem que conhecera como Primeiro Ministro - por vezes duro, inflexível, polémico, um homem praticamente sem dúvidas e que raras vezes se enganava … -- porque fui ao encontro de um “renovado” Cavaco Silva, sereno, complacente, compreensivo, desejoso de servir a todos convicto de que, uma vez eleito, passara a ser o primeiro entre os demais, sem exclusão de quem quer que fosse. Em suma: um Senhor. E é caso de uma vez mais recordar Herculano a propósito do “recado “ enviado ao Papa, através do legado pontifício que parecia não aceitar o “bispo negro”: senhores, presidente temos; não caberá tão cedo a substituição. (*) Boa sorte a nossa. Oportuna condição. n ma (*) o rei mandara dizer ao Sumo Pontífice “ Senhor, bispo havemos; não cabe aqui nova eleição…”. ++++++++++++++++++ Apostila: Envergonhei-me ao reler a minha última crónica, tão desconchavada e truncada apareceu. Confio na compreensão dos leitores mas sempre lhes vou pedindo desculpa… A informática, por mais genial que seja, evidencia “razões” que a razão desconhece.
3636 vezes lido
|