QUE SAUDADES NÓS TEMOS DO JOÃO SEMANA
Os cuidados de saúde que o Estado garante aos portugueses bem podem ser considerados terceiro-mundistas, em algumas situações e quando comparados com a Europa civilizada. E os que mais sofrem, no nosso país, são sempre os doentes de menores recursos, ou mesmo pobres, porque os outros, os endinheirados, encontram sempre soluções. Quando o seu cartão de utente não resolve, resolve o cartão de crédito, com recurso às enfermagens, às clínicas e aos médicos privados! Aquando da revolução de 1974 e a par da liberdade à crítica governativa, consideraámos o acesso à saúde como a mais importante conquista de Abril. É certo que nunca foi capaz de satisfazer, em absoluto, todas as necessidades, mas, apesar disso, o povo sentia ter, por direito e não por esmola, a assistência e os cuidados mínimos que lhe proporcionavam alguma tranquilidade. Trinta e quatro anos após essa mais que justa conquista, feita em nome dos mais desfavorecidos, aparece na governação um ministerial gordinho e bem corado, cabelo luzidio e bem tratado, penteadinho e bem engomado, mas que, em matéria de saúde, nos faz pensar que estamos a recuar no tempo e a ficar de novo na dependência da caridade de um samaritano, do socorro do vizinho ou da influência da velha cunha para ter acesso aos cuidados primários, a uma cirurgia, a um exame médico ou simplesmente a uma consulta. Ai daqueles que não têm alguma influência ou muito dinheiro! E não vale a pena as populações barafustarem porque eles, os de agora, são pouco diferentes dos de antigamente: eu mando e tu obedeces! É aqui que estão as falhas do ministro, a quem não faltam conhecimentos na matéria, e que, infantilmente, deu trunfos aos opositores. E foi pena, porque bastava observar três simples pormenores para fazer sucesso, com todos nós a aplaudir: 1º. - Ter preparada uma adequada rede de transportes e acautelar uma boa coordenação INEM/BOMBEIROS/HOSPITAIS, com responsabilidades bem definidas para todos, de tal modo que os malogrados pacientes não se sintam vítimas dos desleixos profissionais ou da instalada burocracia, nos serviços. Evitar que cada um sinta rei na sua capelinha! 2º. - Dotar os hospitais substitutos das unidades encerradas com os meios infra-estruturais e humanos compatíveis com um maior fluxo de doentes, resultante das alterações ao sistema. Ser capaz de fazer crer aos pacientes que se mudou para melhor. Não é com os doentes amontoados nos corredores dos hospitais e abandonados à sua sorte que, algum ministro nos vai fazer acreditar que a saúde está no bom caminho. A menos que, para o ministro, o bom caminho seja o caminho do cemitério. 3º. - Observados os dois pontos anteriores, fazer uma massificada campanha de informação sobre as vantagens que a remodelação traz às populações, a fim de desmistificar a ideia de que os objectivos do governo são puramente mercantilistas. Ideia que a oportunista oposição usa como arma de arremesso, aproveitando a receptividade do povo que, por tanto sofrer, tem boas razões para desconfiar. Só que os cordeiros de hoje são os lobos de ontem e sê-lo--ão amanhã, se chegarem ao poder. Nós somos dos que concordamos com a remodelação dos serviços de saúde, por não ser possível instalar meios técnicos e humanos de altas tecnologias em pequenos aglomerados populacionais. Mas para que as alterações não sejam interpretadas como positivas apenas para os cofres do Estado, mas, sim, para benefício de todos, é obrigação dos responsáveis encontrar as soluções adequadas e acautelar os meios, mas não só. Paralelamente, os senhores do poder, os que protagonizam as mudanças, têm obrigação de informar os candidatos a pacientes: o povo! O que aconteceu não foi isso, porque começaram a casa pelo telhado e o que podia ter sido uma boa reforma inspirou nos portugueses um sentimento de desconfiança, como o que provocou o Ministro Manuel Pinho, com a célebre frase que fez rir os chineses, ou as afirmações de Mário Lino, com as chalaças em relação ao aeroporto Alcochete/Ota. Ora, em relação ao Ministro da Saúde não serão justas tais considerações porque, para além de ele não ser um incompetente, reconheçamos que tem que lidar com uma classe com demasiados interesses instalados e, também por isso, apostada em desacreditar as mudanças que vão mexer-lhe nos bolsos. Por isso, há que fazer gorar as intenções do Ministro! Por muito bem saber disto, o Ministro Correia de Campos não pode ser só teimoso, tem que ser cauteloso. No meio de todos estes interesses, que saudades nós temos do João Semana que apenas reivindicava a saúde para os seus doentes! n a. a. silva
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