O "BARULHO" DO TABACO!
Assistimos com frequência, via TV, aos protestos dos inveterados fumadores, que se queixam da liberdade que a lei lhes retirou e não permite mais que cada um se dê ao desfrute do cigarro e infeste o ar dos locais públicos. A lei proíbe-os, a partir deste ano, de atirar as suas fumaças para a mesa do lado, conspurcando o prato da sopa ou a chávena do café ou, simplesmente, importunar o “vizinho”, atirando-lhe o fumo para os olhos. Dizem os incomodados com esta medida, que é “injusta” porque lhes limitou as liberdades. Pasme-se! Como se alguém, neste mundo, tenha o direito de reclamar liberdade, quando está a por em causa a liberdade e a saúde do outro. Um dia, no aeroporto de Frankfurt, enquanto esperava, junto a um bar e na zona de interdição ao fumo pela hora de embarque, um indivíduo sentou-se ao meu lado e, de imediato, acendeu o cigarro, sem se preocupar com o fumo que deitava para o prato do meu pequeno-almoço. No meu Inglês primário, alertei-o para o facto de o fumo me estar a incomodar e, além disso, aquela zona ser de não fumadores, ao que ele, num Português correcto, me perguntou se eu era polícia. “Tinha que ser!”, exclamei eu, enquanto me levantava. Como não sou polícia, fiz a viagem sem o pequeno-almoço, mas, por momentos, envergonhado porque, também eu, falo a Língua de Camões. Com tanta desfaçatez dos recalcitrantes, normalmente, gente graúdo, bem aparentada e que se julga tão importante que reclama um lugar, para si, acima da lei - a raia miúda, que se lixe... -, nem será de estranhar que um dia destes, alguém, em nome do estatuto social que reclama, se sinta no direito de conduzir sem carta, rolar em excesso de velocidade ou mesmo andar pela esquerda e os outros que se arrumem. Aliás, somos um povo que conhece, demasiadamente bem, todos os direitos e protestamos por tudo e nada, mas falta-nos saber que cada direito consubstancia, sempre, uma obrigação. Até nas coisas mais simples assim é! Para reclamar o direito de saber, tem a obrigação de ir à escola. Para se sentir com o direito de justiça, tem a obrigação de ir aos tribunais. Para ter o direito aos cuidados de saúde, tem a obrigação de ir ao médico. E por aí fora, com todos os direitos a reclamarem outras tantas obrigações, com excepção dos governantes que, esses, têm todos os direitos e as obrigações, manipulam-nas sempre ao seu jeito e transferem-nas para o cidadão! No que ao fumo diz respeito e a partir de agora, todo o mundo tem liberdade de fumar, mas tem também a obrigação de não importunar os que não fumam porque não podem, ou porque não querem: E todos nós devemos ser polícias! Ora, o que se passou com o director da ASAE e a célebre cigarrilha na noite de passagem de ano, foi uma daquelas que, embora não dê motivo a crucificá-lo, dá-nos pelo menos o direito à crítica - pelo mau exemplo que ele foi para aqueles sobre os quais tem a responsabilidade de fiscalizar. E nós criticamos porque a critica é um direito inalienável, é um acto de cidadania consagrado na Constituição da República e que nós devemos usar em consciência e, equilibradamente! O director da ASAE foi apanhado em flagrante e fotografado. Transgrediu a lei que ele próprio tem por missão fazer cumprir e, depois de apanhado, o super-polícia não teve a humildade de penitenciar-se, perante a opinião pública, como era sua obrigação, e justificar a sua irreflectida atitude com o facto de ser festa de fim de ano. Mas não! O todo poderoso, à semelhança de quem abusa da autoridade, quis justificar-se atirando poeira para os olhos de todos os portugueses e isso já não é só uma distracção, é querer fazer de todos nós, burros. Mas não somos! Se em vez de titubear explicações desajustadas à sua posição, confessasse o seu erro como resultado de uma distracção e com o argumento de que estava em festa e entre amigos - aliás, a convite do dono da casa que, fiscalmente, está sob a alçada de lei que ele próprio fiscaliza e isso não abona nada a seu favor - mas com uma reacção menos arrogante, talvez o problema tivesse morrido ali mesmo e ninguém o valorizasse. Como não teve a sensibilidade, nem a humildade de reconhecer o seu erro e rebuscou argumentos considerados bacocos, como se diz na minha terra, que sou aldeão, e…, foi pior a ementa que o soneto. É por essas e por outras que o povo anda desconfiado dos governantes e seus acólitos, daqueles que deviam ser exemplo a seguir, mas alguns, o melhor é não os seguir: São policiais que “sujam a farda” com as suas chafurdices. Causídicos que enxovalham a justiça com comportamentos duvidosos. Políticos que conspurcam as cadeiras do poder, por falta de ética. Garantes da ordem pública, exemplares da indisciplina! Não admira que o vulgar cidadão deixe de acreditar na boa fé dos fazedores das leis, na honestidade de quem as manda cumprir e na seriedade de quem as executa. – Assim…, para onde iremos nós? - a. a. silva 2008-01-16
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