O nosso "Primeiro" escolhe mal os amigos!
Fizemos quatro meses de silêncio resultante do vazio provocado pela tragédia e chegámos a admitir, não mais voltar às “entrelinhas”, atendendo ao estado de espírito, deveras abalado, mais propício ao recolhimento e menos à exposição pública. E assim continuaríamos, digerindo as mágoas mergulhadas na amargura, não fosse a insistência de alguns fieis leitores da Soberania que, não tendo razões para sentir, da mesma forma que nós, a razão da nossa ausência, manifestam com insistência o desejo do nosso regresso às crónicas de SP. É bom sabermos que os amigos não nos abandonam marcando-nos, com a sua presença de solidariedade e apoio, nas horas de infortúnio. Tal como é reconfortante sentir que, na Sociedade em que estamos inseridos, as ideias que professamos têm ressonância. Fazem eco! Também por isso, depois de controladas as emoções mais fortes, e mesmo sabendo que, dificilmente, voltaremos à normalidade de outrora, sentimos, no entanto, o dever de continuar presentes na vida da nossa comunidade, sentir o seu pulsar e partilhar das suas preocupações, escrevendo, mesmo que ao acaso e com a confiança de que, mesmo sem escolha de argumento, não nos desviaremos da rota. De resto, podemos dar azo à liberdade da pena porque, motivos há-os de sobra e temas quentes é o que não falta por aí! Ora, é fazendo juz à transparência de actuação habitual em nós, e com a frontalidade de quem não deve e sente com intensidade o valor da liberdade, que falaremos daquilo que é a todos visível, deixando para outras “núpcias” a face oculta dessa mesma moeda. Moeda que tanto estimula os suseranos à extorsão dos seus súbditos, quanto sujeita a plebe à ignomínia da escravidão. Moeda que tanto enche de orgulho e bênçãos os mecenas e benfeitores, quanto aquece os bolsos dos ladrões e o “ego” dos endinheirados, mesmo que embrutecidos. Paradoxalmente, é essa mesma moeda o “deus único” dos agiotas exploradores, e o móbil da humilhação dos explorados, numa luta de interesses, poleiros e pelouros. Luta tanto mais suja quanto bondoso, simples e humilde é o povo e quanto mais avarentos são os todo-poderosos. E é neste capítulo que entram os governantes e, mais que eles, os seus desavergonhados acólitos, como exemplo do pior exemplo, a utilizarem as suas influências de forma abjecta, pondo em causa a confiança que se deve ter na democracia e em quem a serve. Agridem o Estado de direito. E fazem-no porquê? - Primeiro, aos que assim procedem, falta seriedade! - Segundo, conhecem os meandros da justiça e sabem demasiado bem como emperrá-la e até obstrui-la! - Terceiro, confiam na protecção do poder e nos brandos costumes do nosso Povo! Na Grécia, mãe de todas as democracias e berço de cultura milenar, esgrimiam-se os demóboros e democratas em argumentos, sempre com os olhos postos no poder. Como por cá! Só que, por lá, há milénios, eram escolhidos os impolutos, os de alma limpa, os que mais garantias parecia darem à defesa dos interesses do povo. Por cá, não importa a condição humana e muito menos a estatura moral, escolhem-se, normalmente os que, mais e melhores tachos oferecem. Por lá, a eleição de cada cidadão era o sinal da vitória do povo e os que traíssem esses princípios eram severamente punidos e excluídos. Por cá, só o clã tem garantias de cidadania e nem traindo serão excluídos. E punição, só mesmo por deslealdade ao polvo. A Cidade/Estado, na antiguidade, era solenemente governada, com sapiência e no sagrado respeito pelo princípio básico da democracia: “do povo para o povo”: E não era apenas doutrina, era a prática! Por cá, solene, é só a tomada de posse porque depois, no dia-a-dia, toda a solenidade é substituída pelo mau exemplo arruaceiro, até chegar ao escabroso insulto. Qualquer pessoa de bem tem relutância de se expor a tal espectáculo, menos os que já perderam a vergonha! Por lá, os ligados ao poder eram, para alem de sábios, bem formados e homens de palavra, o que os impedia de quebrar os compromissos assumidos em nome do povo: Por cá é o que se vê! - Uma grande parte de quem governa a coisa pública, fá-lo, não a pensar nem preocupado com o interesse do povo, mas a pensar no seu próprio interesse. E, para atingir os objectivos, contorna a justiça, atropela a razão, conspurca a democracia e mata o crer e a esperança do povo, com os “jeitinhos” ao familiar, ao amigo, à prima e à prima da prima. E assim vai este País de brandos, onde só estão felizes os que, por uma via ou outra, se sentam à mesa do orçamento, ainda que seja de esguelha. E não é um mal exclusivo do rosa, laranja, vermelho, azul ou preto, é um mal endémico e sem antídoto, impregnado do rés-do-chão ao último andar da governação! Triste sina, a de um povo que não tem razões para se rever nos seus chefes porque, a maioria deles, não é exemplo a seguir. Enquanto candidatos, dão tantas garantias de bonzinhos, democratas e sérios, mas tudo se perde e se transforma, após a assunção aos meandros do poder. Usam o povo para, de mansinho, lhe usurparem os mais elementares direitos e, não raras vezes, passam a ser os actores principais das sujeiras mais abjectas. Tendo em conta a ementa que orna a mesa do poder, diga-se que, para alguns, sempre posta, é triste chegarmos à conclusão que, neste canto onde os nossos tetravós derramaram o seu sangue por uma Pátria decente e livre do jugo dos suseranos estrangeiros, reste apenas o nosso direito à indignação. A decência perde-se quando se perde a vergonha e se faz deste torrão, que já foi de heróis, num ninho de ratazanas a transformarem isto, num “sítio” onde imperam cartéis de malfeitores e governos, não direi cúmplices, mas demasiado complacentes e permissivos com a escumalha que se acoita à sua sombra. O nosso “Primeiro” escolhe mal os amigos! O zé, é um badana, espertos, são os “chicos”. É o que pensam, mas a história ensina-nos que o zé, esgotada a paciência, levou sempre a formas governativas bem menos democráticas. 2010-02-25 n a. a. silva
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