A MISÉRIA DA OPULÊNCIA
Lisboa acaba de ser teatro de uma trágicomédia inqualificável. Enquanto no Darfur já morreram - e continuam a morrer - centenas e centenas de milhares de seres humanos, sacrificados às ambições mais estultas e daninhas, reuniu-se aqui, à nossa porta a “ fina flor” da «numenklatura» africana mancomunada com os mais altos dirigentes da União Europeia. Não é que a iniciativa mereça, em si mesma, ser criticada, bem pelo contrário. Geopoliticamente falando, a comunidade internacional fica a dever à presidência semestral portuguesa a prestação de um relevante serviço aos dois Continentes. A África carece da Europa, enquanto esta, embora não careça daquela, pode encontrar na África uma estimulante complementaridade. Não. O erro não está na aproximação. Está no esbanjamento, na corrupção, no exibicionismo, na maquiavélica gestão política que uma meia centena de cabecilhas leva a cabo, escarnecendo da fome que grassa e das gritantes desigualdades que exponencialmente se acentuam a cada dia que passa. Enquanto, por exemplo, o Chefe do Estado angolano, a coberto da imunidade (e impunidade) que o cargo lhe propicia, vai acumulando uma fortuna sem freio nem limites, a ponto de ser considerado co-mo um dos ho-mens mais ricos do mundo, en-quanto isso, es-crevia eu, todos nós vamos rece-bendo em nossas casas solícitos apelos da UNICEF que pede misericordiosas dádivas para os milhões de crianças carenciadas que deambulam pela imensidão do território daquela nossa ex-colónia. Enquanto o senhor Kadhafy dorme, na tenda grotescamente montada no forte de S. Julião da Barra, o sono dos maníacos e nem se quer fará por esquecer os inocentes que viajavam no Boeing que há anos mandou derrubar e denuncia do alto da sua “cátedra” a ditadura das Nações Unidas, com os demais colegas a aplaudir como basbaques fascinados pela singularidade do personagem, agora arvorado em persona grata da comunidade internacional. Enquanto o sr. Robert Mugabe é acolhido com frieza mas civilizadamente como dirigente digno de participar na reunião magna e a honrosa ausência do 1º Ministro britânico quase que passa despercebida, enquanto estas e tantas outras coisas se sucedem, Portugal canta vitória por ter conseguido acolher gente desse jaez considerada como representante exemplar dos povos que (des)governam e (des)administram ! Se, em lugar do aparato e do esbanjamento, a Conferência se tivesse realizado sob o signo da modéstia e, em vez dos hotéis de 5 estrelas e dos Mercedes, as delegações tivessem escolhido hospedagem modesta e veículos utilitários, a condizer com a calamitosa situação em que se encontra a maioria dos países representados, é bem possível que o FARTAR VILANAGEM que nos apetece gritar fosse substituído por uma saudação serena e respeitosa. A África merece mais e sobretudo melhor. E a Europa também. n MJHM
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