PORQUÊ?!
A (excelente) revista HISTÓRIA, agora dirigida pelo historiador Luís Farinha, dedica o seu último número à instauração, expansão, estabilização, derrapagem e queda do Império Soviético. Aconselho viva e insuspeitamente a leitura deste número da referida publicação. Tratando-se de uma revista com nítido pendor esquerdista ou, para ser mais objectivo, com pendor progressista, não deixa de ser assinalável o cuidado posto na selecção dos artigos bem como na profundidade e seriedade com que os temas são abordados. Sabe bem - porque não havemos de o confessar? - encontrar no próprio campo ideológico de quem não partilha os nossos pontos de vista, sabe bem encontrar o louvável reconhecimento do que foi a miseranda experiência soviética cuja revolução se proclamou feita para dar aos homens mais liberdade, maior igualdade, menos agressividade , mais solidariedade e mais progresso, tendo-se convertido exactamente no oposto, impondo através de uma conduta quase sempre sem freio nem limites, um dos mais se não o mais miserável e despótico turbilhão sócio político alguma vez suportado pelo género humano. De todas as facetas estudadas e abordadas, desejaria realçar aquela que diz respeito ao que, para mim, representa a maior incógnita do que ocorreu desde a chegada de Lenine à Rússia - transportado picarescamente numa carruagem blindada ger-mânica prove-niente da Suíça - até ao colapso ocorrido em 1989, no consulado de Gorbachev. Na realidade não consigo, por mais que reflicta, compreender nem explicar, como foi possível que uma «fortaleza» daquele jaez, construída, forjada e entrincheirada ideológica e materialmente, com todas as características da invulnerabilidade, como foi possível que um «bunker» assim, feroz e hermeticamente preparado e mantido ao longo de 70 anos, tivesse desabado com a mesma facilidade com que se desfaria um castelo de areia ao ser invadido pelas mansas ondas de uma baixa-mar plácida e inofensiva. Sim. Como foi possível que um Partido com para cima de CINCO milhões de membros e uma polícia política integrada por milhares e milhares de agentes, sem contar com o maior exército do mundo, fortemente politizado, como foi possível que, dispondo de semelhantes trunfos, nem um só desses militantes, nem um só desses “compagnon de route” tivesse já não digo disparado um só tiro que fosse ou sequer houvesse desembainhado uma espada na tentativa de se opor à derrocada que ameaçava pôr ponto final na invulnerabilidade da «fortaleza» ! Como foi possível? Esta interrogação já me ocorrera logo após o «nosso» 25 de Abril, salvaguardadas as devidas proporções. Talqualmente nem a PIDE, nem a LEGIÃO, nem a BRIGADA NAVAL, nem a UNIÃO NACIONAL, sei lá que mais, esboçaram sequer um gesto ou exteriorizaram a intenção de se oporem ao golpe de Estado. Tudo pareceu normal, mas surpreendentemente pacífico. Teria sido assim se Salazar ainda fosse o que foi, ao longo do tempo em que exerceu o poder? O que teria acontecido se, em 1989 Estaline ainda vivesse e comandasse? Os dois regimes caíram como caíram, devido à fraqueza e inércia dos sucessores ou ao apodrecimento dos sistemas? Esperava encontrar ao menos um esboço de explicação neste número da HISTÓRIA. Mas… uma vez mais permaneci na ignorância que me tem apoquentado. Talvez nunca se consiga encontrar a resposta válida, definitiva, concludente, para a interrogação. A história revela-se por vezes incapaz de expor alguns dos seus segredos avaramente guardados. n MJHM
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