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Não se pode ser prior nesta freguesia!

por Luisa (dra) Mello em Setembro 13,2012

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Faço ideia dos muitos clérigos que tenham dito (o título deste texto) para com os seus botões, ao longo dos largos séculos que já leva o cristianismo!...
Extrapolando para os leigos, entre os quais me encontro, e, mais ainda, para a cidadã que sou, atenta e preocupada com o andamento da coisa pública: não se pode ter um rasgo de sensatez neste país! Veio o governo propôr vias profissionalizantes para alunos com repetências no estudo comum da escolaridade até ao 6º. ano do básico. Aleluia! Pensei eu, que de há quase 40 anos para cá, tenho andado, a lastimar o fim das escolas industriais e comerciais, que nos davam bons profissionais de actividades essenciais da vida quotidiana, em vez de certos patéticos doutores da mula russa. E se estes se dessiminaram por cursos superiores criados a esmo, mesmo que poucos saibam para o que servem!...
Voltando ao começo: disse “aleluia” à notícia mas houve logo quem se encarregasse de me dar virtualmente um tapa na boca e nas ideias. Explico: tem a Antena Um - serviço público! - um programa diário, exceptuando sábados e domingos - de antena aberta ao debate da actualidade recente. Entre as onze e o meio-dia, que é uma hora óptima para quando, fora de Águeda e de obrigações de vários géneros, não tenho de sair de manhã. Gosto de ouvir esta participação directa dos ouvintes. E gosto sobretudo porque, de uma maneira geral, as antenas abertas em referência são uma espécie de veículo de transmissão de bloquistas e pc’s. É bom saber o que vai em cabeças pensantes, que pouco ou nada têm a ver com a minha mas que tão respeitáveis são como ela...
Disse respeitáveis, não aceitáveis. Por mim, é claro. Ora se já há anos ando a ouvir dizer que isto é um país de doutores e engenheiros, que arranjar um bom canalizador, electricista ou carpinteiro, é mais difícil que conseguir uma entrevista com o Papa, se eu própria penso, perante qualquer avaria doméstica e sua complicada resolução, que me resta provavelmente pedir à União Europeia um artista desses - se não ficar muito mais caro que os da “casa”... e talvez não ficassem!... - se, e eu sei! - há alunos com manifestas dificuldades de aprendizagem das matérias curriculares comuns a todos, mas jeitosíssimos no que respeita às educações visual, tecnológica, física, musical e outras que de momento não me ocorrem, é facto que certas vocações já estão definidas. (Desculpem tão grande parágrafo, que mais parece um daqueles de José Cutileiro nos Obituários do “Expresso”!...). Prosseguindo: na Antena Aberta de hoje, ouvi pérolas de sabedoria que, por um niquinho, me levaram a rotular-me a mim própria da elitista ferrenha, coisa que eu não sou, nem nunca fui. Confederação de Pais, Sindicatos de Professores, doutores e engenheiros avulsos a considerarem, severa e exaltadamente, que desviar alunos, para estudo de profissões mais práticas que teóricas era: 1) - considerá-los burros; 2) - tê-los como estúpidos; 3) - fomentar uma enorme discriminação social; 4) - levá-los para estudos que conduziram a “uma menor respeitabilidade social” (um  sindicalista de qualquer coisa, tal e qual!...). E eu é que possivelmente até sou elista, sem saber!!! Simples, em todos os sentidos, são os universitários, que não fazem ideia do que foi o significado do 1º. de Dezembro e de sintaxe e semântica da sua Língua materna, percebem peva.
Mais “reacionário” que o meu “aleluia” sobre a nova da possibilidade da abertura a alternativas vias profissionais, só ouvi dois senhores. Um ex-emigrante e já reformado dos Estados Unidos - pois... pois... - que apresentava a tese de que o povo português é muito complexado. Dava como exemplo ter conhecido na América muitos médicos, advogados e professores que tinham passado por servidores em restaurantes, distribuidores de jornais, engraxadores e outras actividades de menor respeitabilidade social... Lembrei-me, então, que o nosso Presidente da República também frequentou uma escola comercial, se é que já não estou muito baralhada. Para os seus detractores, pena deve ter sido que não tenha dado num belíssimo escriturário. Fernando Pessoa, foi-o, não querendo fazer a comparação...
Outro senhor comentou (à maneira do meu “aleluia!”) que a medida só pecava por tardia, e, certamente já com os ouvidos em carne viva de outros antecessores, resumiu que os cursos profissionais não estigmatizavam: recuperavam. Bravo!
Engraçado: o que mais induzia à revolta sobre as profissões “menos respeitáveis na escala social” era... a agricultura! Para quem tanto se queixa de que tal actividade não existe no país, é notável!!! Até lhe ouvi chamar profissão suja! Acho que vou a correr lavar os ouvidos!...
n LUÍSA MELLO - 31-08-12
PS: Evidente que não se quer iliteracia para os cursos profissionais, quanto a matérias essenciais, como o Português, o Inglês e a Matemática. Mas isso já vem expresso no projecto do Ministério da Educação para estas saídas alternativas de futuros empregos.

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