Clube da Venda Nova: Campanha das hortas
Anúncios em jornais e arautos do Clube proclamaram benefícios, em convite dirigido à população urbana da cidade, para uma assembleia no salão nobre, falando subliminarmente em reestruturação agrária e até em distribuição de terras. No dia designado, o salão encheu-se de gente ansiosa, anfiteatro, galerias, coxias e corredores. Ao fundo, a mesa grande destinada aos notáveis. A certo momento entrou no salão o presidente Gil Pedalais seguido dos demais membros do executivo e de um homem alto, franzino, fato de bom corte e gravata flamante, óculos grossos de aros de tartaruga, sobraçando uma pasta preta que depositou em cima da mesa, onde enfileirou com os outros. Depois de cumprimentos reverenciais, o presidente Pedalais falou com ar vitorioso: “Trouxe comigo o sr. engº. agrónomo Silvestre Silva, especialista e sábio nas coisas agrárias, que vai apresentar o mérito da nossa iniciativa a que chamamos campanha das hortas”. O apresentado já tinha despejado a pasta, organizou os papeis, saudou a assembleia e disse em tom de mestre: “Na economia, há três sectores: o secundário que diz respeito à industria, o terciário que diz respeito aos serviços e o primário que diz respeito à agricultura, à silvicultura, às pescas, de que vos vou falar”. Perorou sobre a desgraça e a pobreza de quem se dedica a essas actividades e dos prejuízos que dão e concluiu: “Dada a crise endémica e, ao que parece, inexorável, instalada no sector industrial e comercial, dos transportes, bancos, etc., empresas a fecharem diariamente, falências e insolvências, fala-se insistentemente em voltar à actividade agrícola e ao amanho das terras, como faziam os nossos avós, isto é um “back to basics”. “Perante isto - atalhou o Gil Pedalais, com convicção - Toda a gente gostará de ter um pedaço de terra para cultivar e colher os seus próprios alimentos”. Aumentou o entusiasmo dos que ouviam e o Deniz do Bouquets perguntou frenético: “Então vão dar terras? E a quem?”. “Não - retorquiu, amavelmente, o Pedalais - como estamos em zona de minifúndio e temos um grande terreno de mil metros junto à biblioteca, vamos dividí-lo e fazer a concessão de talhões com 40 metros quadrados a 25 pessoas. Terá que haver candidaturas, mas você não se pode candidatar porque tem uma quinta no Ventoso, é latifundiário”. “Pois, uma das condições é não terem outras terras e a garantia de não deixarem o tal talhão a pousio e têm que ter todas as alfaias agrícolas, enxadas, forquilhas, pás, picaretas, etc....”, informou o Jorge Enfermeiro. “Aquilo ali é só para espécies hortícolas, como couves, alhos e feijões – acrescentou a Excelsa da Corga - e não podem usar estrume para não cheirar mal a quem estiver a ler nem ter coelhos, nem porcos, nem ovelhas nem que seja a pastar”. Entretanto perante tanta exigência começaram à abandonar a sala e esperavam em burburinho. Cá fora, comentaram descorçoados e mostrando alguma indignação. “Ora , ora! - exclamou o Acácio Queirós do Vale – 40 metros quadrados não dão nem para um leirão de feijões e um cento de couves “E eu que até já tinha falado com o meu marido para comprarmos um tractor!!!”, comentou, desalentada, a Manuela dos Cacos... *** * *** O Dr. Augusto Casquilho saiu da Trigal, onde acabou de tomar um galão e comer um pão de água com fiambre inglês, e atravessava a rotunda em direcção ao parque auto, quando foi interpelado por uma voz autoritária: !”Ouça lá, o senhor não sabe que não pode passar por aí, que tem que atravessar na passadeira” gritou-lhe um soldado da GNR, torcendo o bigode. Tenho que o multar, o senhor não sabe a lei? Leia o código, leia o código...!”. O Zé do Candeeiro que ouviu aquilo, disse, para mulher: “Ó Clara, poxa!!! Como é que não há-de haver tantos acidentes? Se já nem os juízes lêem o código!”.
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