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Memoria: Conde de Águeda evocado na ANATA

por Mafalda Homem de Mello em Dezembro 14,2011

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Quando surgiu a ideia de fazer a evocação de meu avô, Manuel Homem de Mello da Câmara, fiquei um pouco assustada.
Não tenho grande à-vontade em público, nem experiência de protagonismo, a esfera de influência e de poder que o meu avô e o meu pai tiveram por terras de Águeda passou-me ao lado, não sou muito dada a encómios e, no curto espaço de tempo de que dispunha, não conseguiria fazer uma pesquisa séria. Nasci depois de o meu avô ter morrido, há muito da sua vida que desconheço e, no entanto, sempre o senti presente. Aceitei o desafio e, desta forma, pago-lhe um tributo muito particular, evocando-o, fazendo-o aparecer e trazendo-o à lembrança.
Da sua linhagem mais directa, sou a única que mantém ligações concretas a Águeda, com que me contento e desespero, que defendo e critico. Tenho uma casa, outrora integrada na Quinta da Aguieira, que frequento amiúde e só não mais porque é insanemente percorrida pelo tráfego intenso, veloz e caótico que atravessa o lugar da Aguieira e que, de todas as vezes que cá venho, me leva a amaldiçoar a situação da casa e o desrespeito dos condutores pelos habitantes e seus aglomerados. Tudo problemas de pequena monta, dirão, e pelos quais eu, se o conde velho fosse vivo, pediria que intercedesse, que movesse influências, que removesse a estrada…
Manuel Homem de Mello da Câmara nasce em 1866, há 145 anos, e morre em 1953, com 87. São números que me impressionam. A distância temporal e a proximidade de parentesco. Quando nasce, a lei que suprimia a escravatura em todo o território português ainda não tinha sido publicada e, quando morre, o regime salazarista está no apogeu. Portugal, apesar de todos os tumultos aparentes, parece letárgico. A taxa de analfabetismo em 1950 ronda uns incríveis 50%.
A época do meu avô é um tempo já remoto e acho que bastarão os dedos de uma mão para contar as pessoas, nesta sala, que o terão conhecido e os dedos de duas mãos para as que ainda se lembram da sua figura.
Nasce em Águeda, numa casa bonita e espaçosa, fronteira à igreja e ao cemitério e por isso mesmo chamada Casa do Adro. Leio a situação da casa como simbólica. No largo da Igreja Matriz, no alto da vila – não na Alta Vila – , miradouro sobre as várzeas do rio, domina a povoação. Não sei se os lugares, como os astros, têm influência nos propósitos pessoais; mas talvez, posteriormente, essa leitura possa ser feita: adapta-se o destino à proveniência.
Filho de Albano de Mello, conselheiro, deputado da nação, governador civil de Aveiro, fundador de jornal Soberania do Povo, presidente da Câmara de Águeda, formado em Direito, em quase tudo meu avô lhe seguiu as pisadas,  dentro do mais fiel espírito de dinastia familiar (só para ilustrar: em 1906, sucede ao próprio pai, mesmo que por escassos dias, como governador civil de Aveiro).
Manuel Homem de Mello da Câmara ficou no meu imaginário para sempre ligado à causa monárquica: como homem liberal e de espírito individual, como chefe do Partido Progressista na região de Aveiro, par do reino, deputado, último Governador Civil de Aveiro nomeado pelo regime monárquico, foi agraciado, em 1905, com o título de 1º. Conde de Águeda e com a Grã-Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, insígnia que guardo comigo há bastante tempo.
Mais tarde, já em plena República, foi presidente da Câmara de Águeda e, depois da morte de seu pai, partilha a direcção da Soberania do Povo, com seu irmão António.
Em 1902, herda, por testamento de Guilherme Teles de Figueiredo Pacheco, a Casa da Aguieira. Este, filho de uma irmã do visconde da Aguieira, herdeiro da Casa da Aguieira depois de um processo de habilitação complicado, morre sem geração. Desconheço o papel do meu avô na sucessão, mas a quinta da Aguieira muda assim de mãos e de família.
Instala-se, portanto, o meu avô numa enorme casa solarenga, composta por alas residenciais, capela, adega, celeiros e terras, muitas terras que, segundo eu ouvia dizer na minha meninice, iam da Aguieira a Aveiro, abrangendo, na minha fantasia, quase a área percorrida pelo Ramal de Aveiro, em cuja abertura o meu avô tanto se empenhou. Torna-se um abastado proprietário rural e passa a reunir condições ideais - para a sua personalidade, claro - para fazer trabalho político, exercer influências, conviver com alegria.     
Foi um homem de excessos e mau administrador dos seus bens. Gasta muito da própria fazenda na sua acção política, refugia-se em França, com a implantação da República, e de lá manda vender terras e casas, um bocado ao desbarato. É a roda da fortuna. Enriquecem outros, às suas custas. Não sei o que terá feito por terras de França, se foi boémio, conspirador… Vejo-o sempre, sejam quais forem as circunstâncias e ajudada, certamente, pelas fotografias que dele vi e das histórias que sobre ele ouvi,  rodeado de gente, de muita gente, mais precisamente de homens, que era um tempo quase só deles, acarinhado por amigos, procurado por muitos, excelente contador de histórias, bom ouvinte, gastrónomo, respeitador de diferenças e muito atento a todos. Não sei se o espírito era cristão, mas os empenhos eram sinceros e muitas vezes eficazes. Foi jogador quase inveterado. Perdeu boa parte da fortuna. Acho que terá sido por essa altura que a dimensão da Quinta da Aguieira se aproximou da actual. Não sei se vence o vício, se passa a jogar a feijões, mas deixa de ter dinheiro para esbanjar.
Em 1915, já depois de regressado à pátria, celibatário crónico, fidalgo depauperado, monárquico sem coroa, casa aos 49 anos, num arranjo de conveniência, com a minha avó, de 17, oriunda de uma família culta e delicada do Porto.
Quando penso nos meus avós paternos e no tempo em que viveram, sinto uma onda de simpatia pela minha avó, enclausurada numa mansão rural, cercada por muros com ameias que o meu avô terá mandado erigir para receber a donzela no seu castelo (e das quais eu, no canto que me coube da quinta da Aguieira, ainda conservo 3 ou 4), cercada de homens vetustos, ruidosos e beberrões, que prolongavam os repastos pela noite dentro desabotoando os botões às calças para poderem ingerir mais um prato, e lembro-me sempre da lenda do Barba Azul…
Ao fim de 15 anos, têm o primeiro filho, meu pai Manuel José. Contava o meu avô 64 anos e a minha avó, que já fora tão nova, tinha precisamente metade da sua idade. Passados dois anos, têm uma filha, minha querida e saudosa tia Maria José.
Da vida amorosa do meu avô, pouco mais sei. Se seguiu a tradição dos fidalgos possidentes e bacharéis de província, terá sido mulherengo. Soube-lhe da existência de uma outra filha, professora primária que terá examinado o meu pai na admissão aos liceus e que lhe deixou, ao morrer em 1974, 36 mil escudos - que o meu pai dividiu irmãmente pelos filhos. E desde cedo que, por terras da Aguieira, ouvia falar da parecença que fulano e sicrano teriam com o conde velho, ou mais inquietantemente com o conde novo…
Depois do nascimento dos dois filhos legítimos, exaurido o casamento, os meus avós separam-se e vêm a divorciar-se, numa dissolução legal que é conquista dos republicanos.
E o meu avô vem viver para Lisboa, onde se manterá até morrer, sem fausto nem opulência. E será precisamente ali que desenvolve um dos seus maiores legados: a sua qualidade de pai; mais pai de meu pai do que de minha tia… Duvido que tivesse estabelecido grande ligação com os filhos, enquanto pequenos, mas, à medida que o meu pai vai crescendo e que o meu avô vai vendo nele sementes do seu génio, aproximam-se, convivem, respeitam-se, trocam de ideias e de amigos. Recordo fotografias do meu pai em Roma, com 18 anos, solene e confiante, em pose de protegido político, ao lado de um senhor idoso com uma bonita cabeça branca: era Albino dos Reis, figura grada do tempo de Salazar, que aparecia quase quotidianamente em casa do meu avô para amiga cavaqueira e com o meu pai deliciado a fazer parte do círculo.
Em Lisboa, o meu avô estabelece correspondência intensa com amigos e conterrâneos, nunca abandona a ligação à terra, dirige a Soberania do Povo, perde terreno e influência política, mas, de dedicação invulgar, recebe, de manhã em sua casa e à tarde no Hotel Metrópole, no Rossio, onde o dono lhe tinha graciosamente cedido um gabinete, todos quantos o procuram e tenta interceder, arranjar emprego, livrar da tropa, evitar despejos, despejar, resolver conflitos…
Em 1953, é-lhe feita uma homenagem em Águeda. Convidam-no a estar presente. Está velho e doente. O meu pai consulta o Prof. Fernando Fonseca, amigo e figura ímpar da medicina, saneado da cátedra por Salazar, acerca da deslocação.
“Vai morrer, com certeza. Mas morre feliz se for e infeliz se não for”, prognosticou.
E em Águeda, na sessão solene que lhe foi prestada, ouviram o conde velho proferir emocionado: “Por mim, já cá ficava”.
Volta para Lisboa, onde morre no dia seguinte. E o seu corpo volta definitivamente a Águeda e Águeda, em peso, sai à rua para se despedir e para lhe render mais uma genuína homenagem.

- MAFALDA HOMEM DE MELLO
(Evocação do Conde de Águeda)






























































































































































































 


 

 

 

 
 
 










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