O cão ao contrário
Há certas histórias cuja autenticidade pouco me importa confirmar. Bem pelo contrário, aliás. Há belíssimas histórias que não aguentam a suave peneira da verdade. A consequência é, geralmente, triste: perde-se uma belíssima história e fica-se com a banalidade de um episódio sem interesse. Já falei aqui de Castelar de Carvalho. Ele foi o jornalista do passarinho. Jovem estagiário impaciente, esperava na Redacção do seu jornal pela reportagem que o lançasse nos trilhos de uma carreira inesquecível. Eis que o chefe, à míngua de repórteres experientes, o envia para a cobertura de um incêndio de enormes proporções no centro do Rio de Janeiro. Ledo engano. Mal chegado, Castelar de Carvalho percebe que o incêndio não passa de um acumular de chamas sem horror nem drama. Não desanima. De regresso à máquina de escrever, descreve o movimento do fogo pelas paredes, pelos móveis, pelos objectos. A sua imaginação constrói uma gaiola na qual um passarinho pia de desespero à medida que as labaredas se aproximam. E o passarinho morrerá nesse inferno minúsculo, que poderia muito bem ser o retrato de todos os nossos infernos. Não sei se esta história é autêntica ou não. Lá está: pouco me importa. Castelar de Carvalho tornou-se num dos maiores jornalistas da Língua Portuguesa e a morte do passarinho tornou-se no símbolo da sua longa carreira. Anos mais tarde, Nelson Rodrigues chegaria a esta conclusão: «Não há jornalismo sem passarinho!» Uma vez fui procurar o velho Vítor Baptista a Setúbal. Escrevo velho, mas velho é pouco. Ele não tinha ainda 50 anos e parecia ter 150. Ou mais. Encontrei-o no cemitério. Cantoneiro de profissão, por caridade do município, arrastava-se por entre as campas, como um morto-vivo. Lembrei-me de um tempo em que, espalhando brincos pelos relvados de Portugal, ele dizia sem vergonha e sem modéstia: «Eu sou o maior!» Por isso, comecei por perguntar-lhe: «Lembras-te Vítor, quando eras o maior?» Vítor Baptista foi um personagem que conheci mal. Conheci-o tarde e já fantasma. Ou, se calhar, conheci-o verdadeiro e o outro, o que todos nós temos na memória, de gatas, procurando o brinco na relva da Luz enquanto os companheiros festejavam o seu golo fantástico frente ao Sporting, é que era o fantasma deste último. Mais uma vez repito: pouco importa. O velho Vítor Baptista, o do cemitério, com 150 anos, ou mais, não queria saber do outro, do novo, do que tinha carros desportivos, mulheres louras e jogava no Benfica. Dizia: «O que tive, tive; ganhei e gastei. Foi bom.» E passeava-se como um morto-vivo, por entre campas e jazigos. O Vítor Baptista que eu conheci só tinha saudades de um cavalo. O cavalo sobre cuja sela trotava ao lado dos jogadores quando foi treinador do Estrelas dos Faralhões. Talvez lhe desse uma sensação sem igual: ele a cavalo, os jogadores correndo no redor do campo, o general e os seus soldados, qualquer coisa entre Napoleão e Groucho Marx. Vendo bem: que importa se a história do cavalo é verdade ou mentira? Ou a do passarinho? Ou a do cão ao contrário? Quem trouxe para Águeda a história do cão ao contrário foi o Ingla. O cão é do Buçaco. Um acidente qualquer fê-lo ficar sem maxilar. Isto é: tem a parte de cima da boca, não tem a de baixo. Como não pode ladrar, quando tem fome o cão grunhe. Então alguém, com paciência, o vira ao contrário, de barriga para cima, e enfia-lhe a comida na boca. Assim, ao contrário, a comida não cai por esse buraco onde devia estar o maxilar que não está. Buñuel havia de gostar deste cão... De Águeda ao Buçaco é um salto. Mas não vou lá confirmar. O cão está bem como está. n AFONSO DE MELO Livro “o Cão Ao Contrário” (capa). Edição da Zebra Publicações
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