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Futebol: Os portugueses não sabem perder nem ganhar (2)

por Afonso de Mello (jornalista) em Julho 30,2010

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Para lá da vidraça há um céu claro, sem nuvens e sem pássaros. E uma Lisboa que fervilha, uma quinzena de andares abaixo. «Viajo devagar, o Tempo é este papel em que escrevo», dizia Saramago nas páginas do seu Manual de Pintura e Caligrafia. Viajamos também devagar a todo o comprimento das estradas da conversa. Que ele conduz sem sobressaltos. Ele que não gosta de conduzir...
- Já li, numa entrevista que deu, se não me engano ao Baptista Bastos, que o futebol deixou de exercer em si qualquer atracção. Qual foi o porquê da desilusão? Houve alguma razão especial para isso?
- Não. Eu fui sócio do Benfica com os meus oito ou nove anos. Por influência do meu pai, claro está!, ele era um benfiquista ferrenho, do tempo do Estádio das Amoreiras, com aquelas bancadas e aquele peão de terceiro Mundo. Mas depois as mudanças de vida levaram-me por outros caminhos. Não me apetecia estar a sair de casa para ver um jogo. Nunca fui suficientemente entusiasta para andar de bandeira e cachecol e toda essa parafrenália que fez com que o espectáculo se tenha deslocado do campo para as bancadas. O que aliás está de acordo com os actuais costumes do Mundo. Além do mais desagradei-me...
Interrompe-se. Muda de ideias e decide-se pela inflexão do discurso:
- Também não quero estar aqui com a conversa saudosista do «antigamente é que era bom». Mas a verdade é que, nessa época, o jogador tinha o seu clube e clube e jogador estavam pegados um ao outro. A camisola era uma coisa respeitável. Quase como uma outra bandeira. E o Benfica viveu o orgulho de só ter jogadores portugueses...
- Num tempo não muito distante.
- E agora o que é que acontece? Caíu-se num exagero. Onde estão hoje o Benfica, o Sporting, o FC Porto? O futebol não passa de um negócio. Desapareceu uma certa solidariedade de grupo. Isso fez-me desinteressar pelo futebol, mas também é certo que nunca fui um grande aficcionado.
- No dia em que a Academia tornou público o seu nome como vencedor do Nobel, um dos seus amigos de infância, quando lhe pediram para recordar alguma coisa de si, disse simplesmente: «foi o primeiro miúdo do nosso tempo na Azinhaga a ter uma bola de caútchú»...
Faz um gesto como para impedir-nos de continuar:
- Você sabe que a nossa memória é a coisa mais suspeita que se possa imaginar. Ela é capaz de inventar coisas que não existiram e passar a acreditar nelas. Até acontece que eu nunca tive uma bola de caútchú. Lembra-me bem de andar por lá a dar os meus pontapés mas a bola não era minha.
- O poeta Thomas Eliot, por acaso também ele Nobel lá pelos idos de 48, dizia que «o futebol é um elemento fundamental da cultura contemporânea». Que comentário lhe merece esta frase?
Mexe-se na cadeira e sorri:
- O comentário que essa frase me merece é o de que nem sempre os poetas têm razão.
E continua, bem disposto:
- Essas coisas são sempre muito pessoais. E nada pior do que as citações dos escritores. Primeiro porque correspondem a uma ideia pessoal; depois porque as formulam como se fossem ideias universais. O futebol converteu-se num espectáculo e já nada tem praticamente de desporto. Apenas isso.
- Deixemos então as frases dos outros e passemos para uma frase sua, retirada de uma entrevista concedida ao Jornal de Letras: «o êxito e o fracasso são coisas que têm que ver com o temperamento». Acha que os campeões, os vencedores, são assim, fabricados por eles próprios, mesmo contra as circunstâncias?
- Às vezes, as circunstâncias desfazem as pessoas. Mas também é certo, que noutros casos, as circunstâncias nos ajudam em momentos fundamentais das nossas vidas. Eu tenho que dizer que fui obrigado a lutar contra umas quantas circunstâncias. E, frequentemente, nem sequer estamos conscientes de que travamos uma batalha. Temos um objectivo e tentamos caminhar em direcção a ele. E neste trabalho tão discreto que é de todos os dias acabamos por vencer essas circunstâncias sem que essa vitória se confunda com um grande acontecimento, pelo contrário, seja algo de absolutamente natural. Depois, olhamos para trás, e ficamos com a noção dos obstáculos que ultrapassámos.
- Você é, neste momento, o rosto mais visível de um certo iberismo...
- Eu não sou exactamente iberista...
- É o autor do conceito de trans-iberismo, o que para a questão que lhe quero colocar vai dar ao mesmo. Quando se trata de um Campeonato do Mundo ou de uns Jogos Olímpicos, por quem torce: pelos portugueses?, pelos ibéricos?, pelos lusófonos?
- Eu defendo que devemos sair deste pequeno quintal que é o nosso e pensarmos que estamos num realidade maior que é a Península Ibérica. Mas também não ficar por aí. Olhar para o outro lado do Atlântico, para a América, para a África. E esta recente cimeira Ibero-Americana fez-nos perceber que podemos esperar do futuro algumas coisas magníficas nesse domínio, logo veremos o quê. Quanto ao que me pergunta, enfim, eu continuo a ter uma forte costela patriótica. Agora se são, por exemplo, espanhóis a defrontarem alemães, eu fico do lado dos espanhóis, naturalmente. O que também não significa muito, porque prefiro sempre aqueles que fazem o seu trabalho bem feito. E se uma boa equipa alemã joga com uma boa equipa portuguesa, vejo por vezes a minha preferência cair para aquele que está a jogar melhor, independentemente do patriotismo. Com uma excepção, em todo o caso: quando um pequeno joga com um muito grande, mesmo que jogue mal estou a favor do pequeno.
«Sou tão pessimista que acho que a Humanidade não tem remédio. Vamos de desastre em desastre e não aprendemos com os erros». Quem escreve desta forma viveu obrigatoriamente um sem-número de desilusões. E, no entanto, o seu rosto pacificado, tranquilo, desmente-as. Fala por vezes baixo, devagar, como que para si próprio. Mas as suas frases nunca perdem a fluência, apesar das pausas que sugerem os pontos parágrafos que não comparecem ao encontro das suas prosas.
n AFONSO DE MELLO  
(continua na próxima edição)

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