No dia em que todos meditamos
n Dia 4 de Junho! Dia glorioso! Não só porque o sol está lindo, os passarinhos cantam, as flores cheiram que nem elas, a fruta é doce e saborosa, as televisões nos poupam do empanturramento político-verbal e político-rodoviário-pedonal que foram estes últimos dias! Dia de bem-aventurança para mim, que não tenciono pôr os pés fora de casa, nem que me passe debaixo da varanda uma arruada papal! Não que esteja a meditar que a meditação a que sou exortada tem a decisão inclusa já vai para 30 e tal anos… Quando “visto uma camisola” que se me ajusta bem, é como se lhe pusessem do avesso aquela cola que, não haja cuidado com ela, até os dedos nos ficam colados para a eternidade… Viva para mim o descanso físico – taquicardias, repressão de vontade de atirar sapatos aos ecrãs televisivos, cerrar de dentes para que não saiam palavras ou expressões que nem sozinha gostaria de ouvir na minha boca – descanso mental e visual. Música que me enleve a alma no aparelho de som, leituras “soft” ou divertidas. Paz e sossego. Já merecia! n Do meu último envelope, prenho de recortes relativos à massacração desta vez passada, só retiro apontamentos pícaros. Da memória auditiva, também. Assim ao calhas: senhora de certa idade chegada esbaforida ao pé do microfone de televisão em arruada de Sócrates no Porto: “Eu vou votar nele! Ele pode ser ladrão, mas vou votar nele!” (esta mulher é do Norte!). Outra senhora, com Jerónimo, para quem lhe punha o microfone à frente: “Olhe, menina, eu perdi o meu marido há ano e meio e não me importava de ficar com este!”. Do suplemento “Inimigo Público” do jornal “Público”, às 6ªs feiras! “Portugal acabou de pagar esta semana a guerra colonial, depois de ter pago em 2010 as guerras napoleónicas e em 2008 os Descobrimentos.” Que terá a Troika a ver com isto?!... Como dizia Fernando Pessoa: “No comboio descendente vinha tudo à gargalhada/Uns por verem rir os outros/E outros sem ser por nada.” Do envelope também me saíram coisas sérias, profundas mesmo: “O seu dinheiro em si não existe. É uma abstracção que voga entre instituições financeiras à mercê da inflacção e das taxas de juro, dependente da saúde da economia global.” – Sue Towsend, escritora britânica, que reli há pouco tempo. Entrevista televisiva de Mário Crespo ao escritor, pensador e filósofo José Gil, ontem mesmo: “Estou convencido que se Sócrates não ganhar estas eleições, todos nós vamos respirar melhor.” Passando os olhos nada menos que pelos Lusíadas, na dedicatória em que Camões oferecia a obra a D. Sebastião e o apodava de “maravilha fatal da nossa idade!” (perceba-se tempo). Aqui medite-se um niquinho: Camões pobre e excluído na pátria que o viu nascer, precisava desesperadamente que o rei de então contribuísse para a sua saca de pensão de sobrevivência. É humano e até os génios o são, enquanto vivos. Chamar maravilha a um cretino como D. Sebastião era de quem não comia há mais de um mês. Fatal deve, nessa época, ter querido dizer natural, que se fosse no sentido literal que o vocábulo tem hoje, para o desventurado Camões teria significado morte, não de fome mas de forca… Como já disse, não estou neste dia quarto de Junho da Graça 2011, a meditar, o que não evitei pensar foi na percentagem de votos ainda assim atribuídos pelas sondagens à maravilha-fatal Sócrates! É maravilha que assim aconteça e foi fatal em sentido contemporâneo. Vamos lá à música e àquele livrinho que está a rir-se p´ra mim! n DIA SEGUINTE, Eleições Legislativas. O dia acordou quente e a missa na capela de S. Sebastião, com muita gente dentro e fora, concentrou ainda mais o calor. O resto da manhã de um lado para o outro, com filhos e netos, incluindo o DEVER de votar. Em casa, a ansiedade pelos resultados foi suavizada por um sono-sesta que o meu relógio biológico fez despertar às 20horas precisas, a ouvir anunciar: o Partido Socialista perdeu as eleições! A partir daí deu-me “uma branca” para tudo quanto tinha ficado para atrás… Vim ao cimo, em três precisas ocasiões. Sócrates despedia-se “sem ressentimentos”; pensei se dele próprio se de quem o não voltou a eleger… Passei. Jerónimo verberava pela enésima vez o pedido de auxílio ao exterior e avisava que o pior ainda ia ser daqui avante. Todos sabemos, camarada. De quem a principal culpa? Passei de novo. Pareceu-me ouvir mais tarde ouvir Louçã a falar de novo de ressentimento mas de quem lhe não tinha posto a cruzinha no boletim de voto. Eu não o favoreci com a cruzinha mas não era suposto e passei uma vez mais. À meia noite, estava a dormir! Sossegadinha. n LUÍSA MELLO
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