Missiva a Miguel Portas
Apanhei hoje o dr. Miguel Portas numa de desonestidade intelectual, pelo menos do meu ponto de vista. Dizia o senhor, pelas ondas da Antena Um, com voz de quem ri à tripa forra: “O dr. Passos Coelho veio a Bruxelas levar três puxões de orelhas. De Merkl, de Barroso e de Juncker”. Isto é: da patroa-mor, do compatriota por conta de outrem e do capataz financeiro. E ia rindo. Folgo que se divirta mas permita que pergunte: então não era o senhor e o seu grupo que abominavam a Europa (mais ainda que eu, que sempre suspeitei do que hoje já não é mistério…) E achavam que levar puxões de orelhas de estrangeiros era (é!) a suprema humilhação? Tirando Barroso, o que são os outros dois?! E daí: porque achar o facto tão hilariante? Passos Coelho não é português e não vai à Europa, como Sócrates, de braço ao pescoço?! Para mais, acorrentado aos “affaires” deste último em nome de todos nós? Como é que o senhor tão cioso (como eu!) da independência global do seu (meu) país, acha piada digna de anedotário, que um português seja repreendido por exercer o seu direito de se opôr politicamente a decisões que só aos representantes do povo português competem? E é capaz, porventura, de continuar a galhofar com os maus humores de Merkl, por não ser neste seu (meu) país obedecida como DEVERIA, ela que deve ter sido a principal autoria do reprovado PEC?!!! Nessa linha, achará o senhor ser também de direito vir perorar com todos os seus pares e emparelhados com a sinceridade do agredido em Bruxelas, ao prometer impostos acrescentados em vez de nova fartura no regimento? Como português habituado à mentira e à desfaçatez de há seis quase sete anos para cá, seria mais suave aos seus ouvidos? Eu, que também sou portuguesa, e nunca disso deixarei de orgulhar-me, prefiro uma verdade dura a uma mentira descarada. De resto, como todos sabemos, é de lei pagarem os filhos as dívidas e compromissos pelos pais deixados em envenenadas heranças. Assim, nós, em relação à Mamã, ordens e directrizes teremos de amargar em relação à “herança Sócrates”, quando uns gastavam o dinheiro na compra dos anéis e outros o angariavam à custa da venda dos dedos”. Continue, pois, e a rir-se e que lhe faça bom proveito. O pior é se lhe cai algum dentinho… Já não é consigo, dr. Miguel, a não ser que também esteja a partilhar com esta sua compatriota a angústia das primeiras notícias desta manhã: aconselha o Presidente da República ao líder da oposição que não escarafunche nas contas públicas, já de si aconselhado pelo Presidente da Comissão Europeia, por sua vez avisado por Frau Merkl, a dama de trunfos. NEIN! KAPUT! A caixa de Pandora das nossas Finanças Públicas revelaria um buraco de dezassete mil milhões de euros - o que o Presidente do Banco de Portugal considera DRAMÁTICO! Querem ver que até a Mãe-Europa tem medo que esta caixa lhe expluda nas mãos? Durão Barroso averiguou a “herança” que Guterres lhe deixou em mãos; Sócrates a de Santana Lopes. Passos não DEVE fazer o mesmo em relação aos governos de Sócrates! Ordens superiores. Que tristeza! É o explendor socrático de Portugal. Tirem-me deste filme, no qual sou espectadora embasbacada! Já não tenho idade nem capacidade de aceitação para estas engenharias financeiras, truques, trocas e baldocras. Arre!
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