Os remendados
“Votar para quê?!”, respondia-me um jovem, obtendo o acordo dos restantes. Os jovens ali presentes falavam com atitude de desprezo, desilusão e sobretudo falta de esperança. Desde que me lembro, pelo menos esperança em dias melhores sempre houve. Muitas promessas não cumpridas também! “Já nem têm coragem para nos mentir!”, comentou um. Mesmo dizendo-lhes que isso era sinal de que nenhum candidato nos queria enganar, o que mostrava respeito por todos nós, os jovens mantinham-se firmes: “Dar o voto a esses senhores, nem pensar!” Motivo firme: “O estado em que eles deixaram o nosso país! Não acreditamos neles! Se fossem capazes, já houve épocas de muito dinheiro e não souberam fazer as coisas!” Era difícil contrariar os argumentos. “Mas vão votar e votem em branco, protestem, mas votem!” Entendiam estes jovens que a abstenção era a sua forma de protesto. O desinteresse dos cidadãos, sobretudo dos mais jovens, pela escolha de quem vai decidir o futuro do nosso país é cada vez maior e estas eleições são prova evidente. Estamos cansados de ver todos à turra e à massa lá “em cima” e de ver os que têm muito a terem cada vez mais! Vemos a alargar o fosso entre ricos e pobres e a ver a classe numerosa dos remediados a ter vergonha de dizer que de remediados chegamos a… remendados! A classe dos remendados! Remendam o orçamento, que deixou de chegar para os bens e compromissos essenciais! Remendam a frustração, porque sentem a casa ameaçada, o carro, as propinas dos filhos, a quem prometeram uma carreira, um canudo! Remendam a esperança, que também está em grave crise! Remendar tudo o que está roto não vai ser fácil! Mas, como não há dinheiro para novo, o remédio é mesmo esse! Vamos acreditar que seremos bons “remendadores”!n EC
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