Eu prometera a mim próprio que não voltaria a participar em mais nenhuma campanha presidencial, tão fracas recordações as anteriores me deixaram, excepção seja feita à primeira candidatura de Mário Soares que, ao partir de sondagens da ordem dos 7%, conseguiu alcançar um retumbante e justo triunfo.
Cumpre reconhecer que a última, agora chegada ao fim, pouco melhor decorreu, com insultos e linguagem por vezes indigna do alto cargo que se devia preencher. Mas o convite que me chegou, formulado pelo Chefe do Estado-candidato, tornou impossível manter a validade do compromisso. Pena foi que a ocasião tivesse sido desaproveitada, privilegiando questões de lana caprina, em lugar de se discutirem os mais importantes problemas que, neste momento, precisamente angustiam tanto a comunidasde portuguesa.
Seja como fôr, tudo indica que Cavaco Silva continue em Belém durante o próximo mandato que, aliás, não parece ser de invejar, tantas e tão complexas se apresentam as dificuldades a ultrapassar para vencer a crise.
Tenho a convicção de que as urnas não apresentarão surpresa de maior, de modo a permitir que os receios de hoje possam converter-se em auspiciosas decisões amanhã.
Tudo parece, assim, indicar que a eleição fique resolvida na presente semana, para o que muito deverá contribuir a inteligente tomada de posição assumida por Cavaco Silva no termo da campanha, ao reconhecer que o Partido Socialista ofereceu de mão beijada, aos seus adversários, a oportunidade de criticar, praticamente sem resposta, o peso dos sacrifícios a suportar, bem mais pelos que lutam com maiores dificuldades do que pelos que vivem com orçamentos mais folgados capazes de lhes permitirem a fruição de vida menos apertada e bem mais agradável. Para apagar a labaredas de um fogo, não circunscrito, têm de ser os que se apresentam melhor equipados e municiados os primeiro s a c omparecer. Todos devem contribuir para vencer a crise mas é mister que os mais débeis paguem menos de modo a serem menos penalizados que os outros.
Ao invés do que versejou o Chico Buarque de Holanda, “não, não foi bonita a festa, pá!”