Entre a fé e a razão
Conheci há já alguns anos o senhor D. José Policarpo, então reitor do Seminário dos Olivais, onde residia. Jantáramos no Restelo em casa de amigo comum e ao retirarmo-nos perguntei-lhe se aceitava a minha “boleia”, o que muito me honraria se respondesse que sim. Aproveitei o ensejo para uma troca de impressões franca e alargada. Apesar de já terem decorrido alguns anos, não esqueci o que dissemos e mantive bem viva, no livro das minhas melhores recordações, a conversa que se proporcionou. Pouco tempo depois o senhor D. José era nomeado bispo e cardeal-patriarca de Lisboa. Não voltei a conversar com Sua Eminência, mas não deixei de acompanhar, com a devida e merecida atenção, o desenrolar da actividade episcopal que tem desenvolvido muito particularmente a abertura de espírito que tem evidenciado de modo a que possa ser justamente considerado como homem do seu tempo. Por isto mesmo, fiquei algo surpreendido ao tomar conhecimento da homilia pascal pronunciada pelo senhor D. José, homilia que pretende, ou pretendeu, confrontar a Fé com a Ciência, para concluir que ambas são compatíveis, ao contrário do que correntemente se considera. Longe estou de ousar um diálogo, sobretudo público, com Sua Eminência, intentando percorrer caminhos de mim muito menos conhecidos, além de não ignorar a impossibilidade de discutir a Fé - que é um sentimento que tanto se pode ter, ou não, com a Ciência que resulta da experimentação que consiste em observar um fenómeno natural, de modo a que seja possível aumentar o conhecimento que se procura adquirir através das manifestações ou leis que regem os diversos fenómenos naturais. Resulta daqui - e não creio que possa ser outro o resultado - a incompatibilidade entre o sentimento e a razão ao invés do que parece pretender o senhor cardeal. Na verdade, como será possível compatibilizar cientificamente a criação do homem - como ensina o Velho Testamento - com a evolução das espécies, conforme hoje está absolutamente provado? Como será possível compatibilizar a existência da Santíssima Trindade (três pessoas distintas, numa só verdadeira) com a individualidade humana ou aceitar a simbologia bíblica (reconhecida pelo próprio senhor D. Policarpo) com a realidade, como seja o caso do cansaço divino ao fim de seis dias de trabalho dispendido na criação do Universo ou o «faça-se luz e a luz fez-se» cientificamente impensável e impossível? Como será possível aceitar cientificamente a presença física no Céu da Santíssima Trindade e mais a mãe de Jesus, cuja Assunção foi considerada, pelo Papa Pio XII, verdade dogmática? Não, não é possível. Que se respeite a Fé, compreende-se e aceita-se. Mas compatibilizar a Ciência com os sentimentos parece-me impossível. O senhor D. Policarpo que me desculpe mas não consigo. Não consigo acompanhá-lo.
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