O obscuro mundo do futebol!
Quando eramos garotos, ainda na primária, jogávamos a nossa peladinha em metade do recinto da escola, a que chamávamos recreio, sem que, à data, soubessemos muito bem distinguir se recreio era o tempo ou o espaço que usávamos quando estávamos fora da sala de aulas. Para nós, o recreio sempre foi, erradamente, considerado o espaço. Espaço que metade era usado pelos rapazes, ficando a outra metade reservada às raparigas que, como ao tempo mandavam as boas regras, tinham também salas de aulas separadas das nossas e uma professora, enquanto nós, rapazes, tínhamos um professor. E, para evitar misturas, contágios, confusões e outras confissões, a separação era rigorosa. Ai daquele que calcasse o risco! Os sábados eram os dias de excepção. Movimentávamo-nos à vontade por todo o espaço e, bem ao estilo nazi “Heil Hitler”, de braço estendido ao nível do ombro, desfilávamos num ritmo marcial, cantando e rindo, como reza o hino da Mocidade Portuguesa. Mas, apesar desse ritual, àquele tempo ter alguma correlação com a Hitlerjugend (juventude hitleriana) e de só podermos dar uma olhadela às raparigas, de soslaio ou espreitar pelo buraco da fechadura tínhamos, apesar de tudo, liberdade de criticar o que se nos aprouvesse e sem penalização, conquanto que não fossemos tomados por perigosos aos olhos do grande chefe! No nosso campeonato, podíamos discutir, até à irreverência, um fora de jogo mal assinalado, um pénalti inexistente, uma queda simulada, uma carga disfarçada, um cartão vermelho injusto, um golo mal validado ou aqueloutro mal anulado. Os protestos, mais ou menos exaltados, sempre que havia descaradas irregularidades, incluíam insultos aos jogadores e aos árbitros, mas principalmente, às suas mães e às esposas. “Seu filho da p…., seu corn…” e daí para cima, sempre com muitos ornatos linguísticos e escabrosos palavrões! Já lá vai mais de meio século e já nessa altura só os ladrões e a corrupção não tinham a dimensão actual. Convenhamos que, hoje, esses “atributos” são muito mais sofisticados! Àquele tempo, os “erros” na arbitragem eram provocados por defeitos de visão e em consequência dos olhares clubistas, normalmente vesgos, pelo que viam só para uma lado: o deles! Hoje, os errantes têm não só mais consciência, mas também consistência nos erros que cometem. Talvez por isso são muito bem pagos e compensados pelos “erros”, sem pagarem IRS Imaginam que as coisas melhoraram só para os árbitros? Desenganem-se! Hoje, um salteador já não rouba a galinha, que dá muito trabalho a depenar, rouba uma vaca que, enquanto dura, dá para fazer uma sesta. Hoje, não se rouba um vintém para os rebuçados, rouba-se um banco e a seguir, vamos de férias. Com as novas tecnologias a funcionar e os papalvos a tomarem como certas as promessas milionárias de uns espertalhões mais temeratos e falsários que os salteadores do Vale do Grou, entregamos, para guardar, o ouro ao bandido e ele, sem precisar sair da sua própria casa, surripia-o suavemente, enquanto o cliente está adormecido, rendido à canção do bandido, sussurrada ao ouvido. Quando abre os olhos é demasiado tarde: resta-lhe o saco vazio e o pau por amparo para o resto dos tristes dias! Qual rótulo de ladrão, qual quê: o traste usurpador continua destinatário dos maiores encómios a exibir os títulos honoríficos com que, pomposamente, foi distinguido no preciso momento em que dava o golpe do baú e deixava na miséria, gente séria, crente e bem intencionada. Impávido, pavoneia-se entre a inocente multidão que verga a espinha à sua passagem. Pobre povo! Mas este mundo é assim. Os cifrões fazem esquecer as misérias e garantem posição relevante! Com a distribuição de óbolo aqui, óbolo acolá até à hora de comprar um rosário, eis o homem novo, a cheirar mal, mas a resplandecer de medalhas! Voltemos ao místico sub-mundo do futebol, esse antro onde está institucionalizado tudo o que é desprezível desde da corrupção à vigarice e sem que os lesados tenham direito à indignação ao protesto e muito menos, à protecção. Vivemos num país, dizem, de democracia avançada onde o cidadão tem o direito de criticar tudo: o patrão e o chefe de serviço, o presidente disto e daquilo, o guarda e o polícia, o Mestre e o Professor, o Médico e o Engenheiro, o Primeiro-Ministro e o Presidente da República, o Pai e a Mãe. Mas…, cuidado! Nunca critiquem os “futebóis”, nem os árbitros, nem os “bandeirinhas”, nem os conselheiros da arbitragem, nem os dirigentes das Ligas e muito menos os barões de tudo isto, que é considerado crime de lesa-magestade: Eles estão todos metidos no mesmo gamelão e nunca se deve mexer na barriga da mula, quando ela está a comer! n a.a.silva 2009-04-02
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