Uma nova era...
Enquanto o mundo dos negócios se afadiga em busca de soluções mais ou menos miraculosas para a crise de que toda a gente fala, que todos sentem e que ninguém é capaz de explicar, e muito menos de jugular, ocorreu na Arábia Saudita um abalo telúrico social que ninguém esperava embora, toda a gente soubesse que um dia acabaria por acontecer. Mais ou menos o que se passa com a expectativa de um novo terramoto que “promete” arrasar Lisboa, embora não seja ainda possível prever cientificamente quando a tragédia semelhante à de 1755 se repetirá. Refiro-me a dois acontecimentos equivalentes a um terramoto de elevadíssimo grau, segundo os quais o governo da Arábia Saudita vai ter uma mulher como ministra da Educação para a Condição Feminina, ao mesmo tempo que as mulheres do reino saudita poderão ser autorizadas a conduzir viaturas motorizadas. Parece piada mas não é. Pode, pelos vistos, viver-se segundo as regras medievais em pleno século XXI. Ou seja: o homem avança ciclopicamente nos domínios da tecnologia e «desloca-se» a passo de caracol no reino da sociologia. Sejamos justos. Esta fobia contra o chamado sexo fraco, ou misogenia, foi sempre uma característica de todas (julgo que todas) as crenças ou religiões. Mesmo o cristianismo que ocupou e ocupa as manchas mais civilizadas do Globo, nem mesmo o cristianismo conseguiu libertar-se dessa inaceitável disparidade que colocou e ainda coloca em imensos casos as mulher numa posição subalterna relativamente aos homens. A preponderância que a Virgem Maria, por exemplo, veio a conquistar na Liturgia Católica só se verificou e arreigou séculos depois do Calvário. O VelhoTestamento é inequívoco quanto à subalternidade da criação da mulher vis a vis do companheiro que Deus lhe deu para usufruírem as delícias do Paraíso Terrestre constantes da Bíblia (mulher nascida do homem, tentada pela serpente, submetida à vontade do amo e senhor, etc., etc.) foram arrastadas para a prática religiosa, impedindo o acesso das mulheres ao sacerdócio, à consagração bem como à confissão e ao Crisma. Ser mulher na maioria dos países maometanizados é viver (?) sob o estatuto de escrava, sujeita às maiores sevícias morais e físicas. Maomé revelou-se ainda mais radical e no pouco em que se revelou mais “aberto” os discípulos encarregaram-se de “ fechar”, arvorando o fanatismo em espelho do Profeta. È claro que os purismos religiosos conduzem ao exagero. Ninguém acredita - se não for fanático - que o Profeta mandou que as mulheres tapassem os cabelos por uma questão religiosa mas de higiene. E com os jejuns, penitências, flagelações etc.,etc., idem, aspas. A não ser no que toca aos grandes princípios (Sermão da Montanha) e às regras básicas dos Livros Sagrados do monoteísmo, tudo tem de ser lido e entendido figurativamente, simbolicamente, porque seria uma cretinice acreditar-se (como diz a Bíblia) que Deus depois de fazer o Mundo estava cansado e descansou ao sétimo dia. Voltando às proibições decorrentes da prática religiosa os ventos da mudança hão de revelar-se pelo menos tão intensos quanto aq1ueles que deram por terminado o ciclo colonial. Não digo que as religiões acabem. Mas tenderão a extinguir-se se não se modernizarem e actualizarem, a tempo e horas. A Arábia Saudita acaba de dar um bom exemplo. Pena é que possa ser já demasiado tarde. n HOMEM DE MELLO - Director Honorário SP
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