O discurso e o método e o método do discurso
2009: vêm aí os meses decisivos para o futuro imediato da Selecção Nacional. Não tanto pelas dúvidas que suscita o apuramento para a fase final do Mundial 2010, agora mera hipótese académica, que obrigará a uma tarefa homérica, mas principalmente pelo que se prepara para lá de tão presumível fracasso. A Selecção Nacional sempre viveu de repentes. A história dos seus quase 90 anos de vida está aí para o confirmar. Ciclos (curtos) positivos e outros (longos) negativos. As três últimas décadas revelaram uma face diferente de uma equipa que aprendeu a crescer, baseada na indiscutível classe dos seus jogadores de topo. De 1996 (Europeu) até 2008 (Europeu), Portugal apenas falhou a presença na fase final do Mundial 98, em França. Nessas cinco fases finais, só por uma vez (2002) foi eliminado antes dos quartos-de-final. Em 2000, 2004 e 2006 atingiu um dos quatro primeiros lugares. A este ciclo de sucesso seguir-se-á, pela lógica, um ciclo de insucesso. 1) Porque a qualidade dos melhores jogadores portugueses tem vindo a decair. 2) Porque não se vislumbram jovens com a classe dos anteriores. 3) Porque assistimos à paulatina destruição de um «espírito de selecção» que teve por base a geração dos campeões do Mundo de juniores e se universalizou com Luiz Felipe Scolari. Quando fui convidado para trabalhar na Selecção Nacional, como responsável pela comunicação, em Novembro de 2003, Luiz Felipe Scolari vivia o ponto mais baixo da sua popularidade em Portugal. A derrota frente à Espanha (0-3) em Guimarães provocou a impaciência dos adeptos. As contínuas insinuações e guerrilhas verbais levadas a cabo pelo presidente do FC Porto contra o seleccionador, apenas exteriormente provocadas pelo afastamento de Vítor Baía da Selecção Nacional - afastamento esse que foi, em primeiro lugar, patrocinado pelo próprio presidente do FC Porto numa altura em que procurava, desesperadamente, fazer com que Vítor Baía saísse do FC Porto - voltaram a dividir, como é prática corrente na sombria figura, os adeptos da Selecção. Luiz Felipe Scolari tem um discurso incisivo e facilmente assimilável. Mas também é impaciente. E essa impaciência transforma-se facilmente em agressividade. Conhecendo-o pessoalmente, é simples gostar dele. A minha tarefa foi, essencialmente, essa: dá-lo a conhecer. Quando, através da Comunicação Social - à qual Scolari se mostrara até aí muito avesso -, os portugueses começaram a conhecê-lo na sua «versão amiga e familiar», rapidamente se deixaram encantar pelo seu estilo bonacheirão de falso duro. Mesmo muitos daqueles que continuam a endeusar o presidente do FC Porto e as suas opiniões de cata-vento - o mesmo senhor que, feliz, abriu garrafas de champanhe em sua casa para comemorar a derrota de Portugal frente à Grécia, na final do Euro-2004, numa bela demonstração da sua personalidade. É do discurso que quero falar. Ou do método do discurso. E das alterações ao método e ao discurso. Conheço Carlos Queiroz há muitos anos e considero-me seu amigo. Onde Scolari é aberto; Queiroz é fechado. Onde Scolari é expansivo; Queiroz é contido. Os portugueses foram confrontados com estas diferenças de forma muito evidente. Queiroz terá sentido a necessidade da ruptura com os métodos de Scolari. E com o seu discurso. Se Scolari não fazia promessas e se recusava sempre a aceitar Portugal como candidato a vencer competições, preferindo a táctica do passo-a-passo, Queiroz lançou o repto dos títulos que faltam à Selecção Nacional: propôs-se a dar o passo seguinte. Um passo de gigante. Um erro claro no discurso. O Portugal do Euro-2008 era muito inferior à equipa de 2004 e 2006. Apesar de Cristiano Ronaldo ser agora melhor. Para mim foi sempre muito claro que iríamos entrar no ciclo do insucesso. Ele estava aí escancarado à nossa frente. Carlos Queiroz foi o primeiro seleccionador a assinar contrato por quatro anos. Há, portanto, no seu horizonte a perspectiva de um trabalho a médio/longo prazo. Deveria ter sido esse o alvo do seu discurso. O discurso da construção. O discurso do método. É essa a sua grande força. Devia ter deixado bem claro aos adeptos que a sua herança era pesada. Que Portugal vinha de um ciclo de vitórias como não existira nenhum outro na sua história. Que a selecção de hoje perdera muitos jogadores (e homens) de qualidade. Jogadores (e homens) insubstituíveis. Não o fazendo, condenou-se ao imediato. E, infelizmente para ele e para todos nós, o imediato não é bom. Resta saber se esse discurso poderá funcionar depois do fracasso. Nessa altura, não poderá haver outro. E não é um discurso capaz de entusiasmar quem quer que seja após essa tão previsível derrota que será o falhanço no apuramento para o Mundial da África do Sul. E Queiroz está agora na encruzilhada da importância das palavras.
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