Engolir sapos...
Não sou aquilo a se possa apelidar de um gastrónomo. Gosto muito de cabidela de leitão, de caldeirada de enguias, de ensopado de cabrito e de jaquinzinhos fritos. Mas sou de boa boca, como couves e batatas, peixe e carne, saladas e conservas. Como, basicamente, aquilo que está disponível no cardápio dos restaurantes que frequento. Também não sou um enófilo, um conhecedor e apreciador de vinhos. Mas gosto de acompanhar a refeição com vinho, apesar de não ter uma região vinícola preferida. Bebo tinto ou branco, da Bairrada ou do Alentejo, leve ou encorpado, novo ou velho, conforme a disposição. E não desprezo os secos e os adamados, os verdes e os rosés, nem recuso uma taça de espumante, seja ele português, francês ou ucraniano. Mas do que eu gosto mesmo é de água. Já agora diria que também não sou político, apesar de gostar do debate de ideias, da discussão ideológica e da participação na coisa pública. O que nem sempre é fácil. Nos dias de hoje, é complicado definir quem é de direita ou de esquerda, quem é liberal ou socialista, quem defende o quê. Parece que vivemos numa nebulosa em que os dirigentes políticos são tudo e o seu contrário. Que agora dão razão aos manifestantes, e que daqui a pouco os mandam dispersar à bastonada. Tal como os pais devem servir de exemplo aos filhos, também os partidos, os dirigentes políticos e os governantes se deveriam reger por princípios que não deixassem dúvidas aos seus apoiantes e militantes. Mas o que vemos? Oportunismo, defesa de interesses e jogadas de curto prazo. Perante a actual crise financeira, que deveria exigir o esforço conjunto de todas as forças políticas e sociais, a que assistimos? O governo propõe uma medida e toda a oposição berra que a medida proposta não é a acertada. Quando o governo baixa impostos (IVA) a oposição berra. Quando o governo define um plano de obras públicas (bom ou mau) a oposição vem dizer que o que fazia falta era uma baixa de impostos (IRS, IRC…).. Quando o governo salva bancos da falência, a oposição berra que o governo só apoia o grande capital e se esquece dos trabalhadores. É certo que as oposições têm razão em muitas das críticas que fazem, e é seu dever fazê-las. Como também é seu dever apresentar propostas alternativas credíveis. O que, a maior parte das vezes, não acontece. Que credibilidade tem Paulo Portas para barafustar contra a salvação do BPP, gritando que se trata de um banco dos ricos? Então os bancos são de quem? Dos pobrezinhos? E os dirigentes do CDS são o quê? Proletários da cintura industrial do Barreiro? Reformados a viver com o salário mínimo? Ouvir esse tipo de discurso da boca de dirigentes do Bloco de Esquerda, ou do PCP, eu ainda admitia. Agora, vindo de Paulo Portas e do CDS? Tenham vergonha! Como deveriam ter vergonha os dirigentes do PSD que, embora menos acutilantes, também contestaram a salvação do BPP. Mas que não deixaram de aplaudir a nacionalização do BPN, talvez por o seu presidente, Oliveira e Costa, ter sido Secretário de Estado de Cavaco Silva. E por lá se terem acoitado muitos outros importantes dirigentes do partido, de Dias Loureiro a Rui Machete! Voltando ao princípio. Não sou gastrónomo nem enófilo. Também não sou político. Por isso não tenho que engolir sapos, vivos ou cozinhados, acompanhados ou não de bebida. Apesar de ser de boa boca, acho-os uma comida intragável!
2791 vezes lido
|