Dilema de Natal!
Todos percebemos que a crise está aí. Qual trombeta silenciosa, ela é já o estado de espírito capaz de arruinar o sono de quem anda acordado. O comércio queixa-se, mais que nunca, da falta de clientes e de vendas e a economia toda definha na esteira do arrefecimento crítico dos negócios. É preciso poupar para que o investimento ocorra, mas também é necessário o consumo para estimular a produção. É verdade que nos últimos anos houve uma corrida sem precedentes ao consumo através do endividamento das famílias, situação que melhorou o nível de vida de muitas delas e que, por outro lado, foi motor do emprego, dos preços acessíveis e da inovação sem precedentes. Perderam-se no caminho os hábitos de poupança… Habituámo-nos a entender os preços como expressão da escassez dos bens, sendo certo que hoje, deveras, a escassez séria é de consumidores: esse é, de facto, o bem mais escasso. Quando se reconheceu essa realidade inventou-se o crédito elevado à potência necessária para manter o sistema a funcionar. Alguns, de insaciável ambição, exorbitaram na engenharia e acabaram por desmoronar o edifício afinal alicerçado em rocha virtual, que subtis e encriptados mecanismos vendiam como granito duro. Veio a desconfiança, mesmo entre respeitosos e respeitados pares. Pergunto-me, frente a este tempo de natal de 2008: poupar para evitar que as nossas necessidades de financiamento venham do exterior, sacrificando o consumo e o estímulo à produção, ou gastar - no limite, “comprar o que é nosso” -, para fomentar a actividade industrial, o comércio e o emprego? Eis o grande dilema de agora. Como até aqui, a sensatez mora algures entre as duas atitudes. Os meus votos para este Natal são para que, milagrosamente, em 2009 a crise que ainda é só estado de espírito não se transforme em dramático e perigoso cenário de privação, com as consequências sociais graves que daí advirão para todos. Mais do que nunca, é necessário cultivar a lucidez e a atitude positiva. Feliz Natal para todos. n FA
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