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Aprender a poupar, aprender a gerir o dinheiro

por Beja Santos em Maro 18,2010

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“Como esticar o salário e encurtar o mês” (por Camilo Lourenço, Livros d’Hoje, Publicações Dom Quixote, 2009) é um livro pouco amável, nada sonhador, recomenda uma nova cultura da poupança e convida a olharmos as despesas com lucidez e frieza. Porque amanhã também se fazem despesas e é no presente que se compromete o futuro. Lendo-o e relendo-o, fica-nos a convicção de que o crédito ao consumo e o endividamento, na generalidade dos casos, não são uma fatalidade, que compete aos consumidores organizados e aos seus defensores institucionais todos os alertas sobre a prevenção do endividamento excessivo e a ajudar a retomar o gosto em saber mais sobre as despesas familiares.
Há 25 anos atrás, não seria seguramente relevante preparar os jovens para uma reflexão judiciosa acerca da cultura financeira e da gestão prudente do crédito ou a valorizar a poupança. Como toda a gente sabe, passámos rapidamente de uma cultura do aforro para a expansão exponencial do crédito: a partir de 1999, pela primeira vez na sociedade portuguesa, o financiamento do crédito às famílias ultrapassou o das empresas.
É fácil perceber que consumir é mais aliciante que poupar, segundo as normas vigentes na sedução consumista. Na nossa perspectiva, há todo o interesse em que o sistema educativo promova sem complexos a aprendizagem das modalidades do crédito ao consumo, ensine a ponderar o custo do crédito, a saber ler os apelos comerciais ao seu uso e, sobretudo, a prevenir os dramas inerentes ao endividamento excessivo dando a todos uma formação que nos habilite a valorizar a poupança e a perceber o que está por detrás de antigos provérbios que entraram em desuso, tais como: “emprestar a um amigo é perder o dinheiro e o amigo”, ou “aquele que se casa com dívidas dará os seus filhos como juros” ou ainda “não há pior pobreza do que estar endividado” e também “quem paga a crédito paga a dobrar”. É por isso que o livro de Camilo Lourenço é tão oportuno e estimulante.
O mais curioso é que o autor limita-se a pegar nos números, a recordar-nos conceitos incómodos quanto à firmeza em cortar nas despesas para pôr algum dinheiro de lado, dando dicas óbvias: criar um orçamento mensal, separar as despesas correntes das de capital e criar uma “reserva” para casos de emergência. Ensinar os filhos a poupar é elementar. Por exemplo, dando-lhes três mealheiros destinados às poupanças de curtíssimo prazo, de médio prazo e de muito longo prazo; mas também mediante a abertura de contas poupanças ou atribuindo-lhes uma mesada e ensinando-lhes a geri-la.
Passando para o crédito ao consumo, o mínimo que se pede a quem precisa de recorrer a empréstimos é de avaliar as taxas, a não se deixar enganar pela publicidade e a ter em conta o impacto das decisões. O autor aconselha a não recorrer às contas ordenado, um expediente que fomenta despesas e que pode sair caro. Em síntese, é aconselhável só dispor de um cartão de crédito, negociar uma anuidade baixa, usar o cartão apenas em situação de real necessidade e pagar sempre a conta do cartão no prazo estipulado pelo banco.
Aprender a poupar não é cómodo, nem sempre é praticável, requer disciplina e cabeça fria, sobretudo na distinção entre o que é essencial e acessório, não comprando qualquer coisa só porque se está em promoção. Saber medir as consequências é encontrar as alternativas para reduzir os almoços e jantares fora de casa, por exemplo, é educar os filhos a saber usar roupa económica e não estatutária, é meditar muito bem nas responsabilidades do crédito à habitação. Aqui o autor propõe-nos como questões a reter: não pedir 100 % do valor do imóvel (isso ajuda a baixar o spread); em caso de dificuldade, saber negociar com o banco a redução do spread, guardar parte do valor mutuado ou suspender a amortização; o custo do crédito não deve ser superior a 30 % do orçamento mensal; devemos ter uma reserva de vários salários (ele sugere de 5 a 6) para o caso de ficar desempregado.
Mas poupar não é só na roupa, na alimentação ou na habitação. Os transportes, a energia e as telecomunicações têm igualmente peso significativo. O primeiro conselho que o autor no dá é, sempre eu possível, reduzir drasticamente a redução do automóvel de e para o trabalho, procurar as promoções que dão desconto no combustível, cuidar da manutenção do carro (particularmente o estado dos pneus. Na energia, há aconselhamento antigo (como seja lavar a roupa ou a loiça com a máquina cheia; verificar o isolamento térmico da habitação; contratar uma tarefa bi-horária com a EDP...) ou moderno (pôr painéis solares ou fazer isolamento do telhado, há deduções no IRS). Quanto às telecomunicações, temos também um enunciado que não é cómodo para todos: fazer um plano detalhado das necessidades, saber contratar uma tarifa plana, usar o SMS em vez da chamada telefónica ou verificar os downloads e os limites de consumo fixados pelos seu Internet Service Provider.
Em jeito de conclusão, Camilo Lourenço avisa-nos que poupar é um acto de bom senso, pelo que tudo quanto se diz no livro não é nada que nós não saibamos. O mais importante é estarmos convencidos que temos mesmo de poupar. Agora estamos a aprender à força, condicionados pela recessão e mais comenta: “O ideal é conseguir passar os princípios de poupança aos nossos filhos, desde tenra idade. Não só porque vão ser os cidadãos do futuro mas porque de nada adianta estarmos nós, os adultos, a aforrar enquanto os nossos filhos gastam o que têm e o que não têm. Porque, em última instância, a factura será paga por nós”.  n BEJA SANTOS

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