Tiraram o azimute e desenharam um caminho selvático-urbano junto à pateira
Não tem limite a imaginação e a criatividade dos iluminados do Clube. A pensar principalmente no saber e na saúde dos cidadãos, sem qualquer objectivo eleitoralista, pegaram no mapa, na bússola, num galo de campanário (para saberem a direcção dos ventos), na régua e no esquadro, tiraram o azimute e desenharam um caminho selvático-urbano junto à Pateira, deste caso de Ois, que vai de Espinhel até à Ponte da Rata, passando por Ois da Ribeira. “Este trilho vai passar por entre árvores e fauna autóctones”, explicava o Gil Pedalais, em assembleia convocada para o efeito, arescentando: “Mas em relação às aves, falará o nosso ornitólogo, que acompanhará os viajantes que façam o percurso”. ”Falando de aves - continuou um homem de óculos de aros de tartaruga, chapéu de explorador africano, calções de ganga amarela, camisa de caqui, botas de atanado de meio cano e meias até ao joelho - podemos encontrar naquele itinerário pedestre, aves de muitas espécies e penas variadas, desde o pavão à gralha, pato-bravo, aves de arremedo, galeirão, águia sapeira, guarda-rios, etc.. É evidente que o percurso não pode ser feito à hora em que estão a dormir”. Na galeria do salão, entre palmas ruidosas do Manuel Tampos de Espinhel e do Fernando d´Ois, levantou-se uma voz discordante e indignada, a de Amílcar Granizo, que perguntou: “Só quero saber porque é que Fermentelos foi preterido e foi aberto o trilho do outro lado? A pateira até se chama de Fermentelos e nós temos lá muito mais pássaros e árvores...”. “Acontece que - retorquiu a Excelsa da Corga - nós pensámos também nisso, mas a Pateira agora tem o nome de Pateira de Águeda e quando começámos a desenhar no mapa um possível percurso para esse lado, ele ia passar necessariamente pela sala de jantar da estalagem e era desagradável estarem as pessoas a comer e entrarem por ali dentro os turistas com as botas cheias de lama”. ”Eu não aceito esse argumento - respondeu o Granizo, com ar zangado - se era assim, faziam uma passagem aérea e ficava a questão resolvida!...”. E foi-se embora.
**** ** *** A avenida que era das palmeiras, junto ao tribunal, está linda e airosa. O odor telúrico intenso de terra lavrada é bucólico, relaxante. ”Que tivessem levado as palmeiras, ainda vá lá!”, dizia o Zé do Candeeiro, manifestamente nervoso, à porta da loja - mas cometeram grande desaforo ao levarem da rotunda aquele magnífico conjunto arquitectónico...”. “E de grande valor - acrescentou a Drª Luísa do Mel - até porque o conjunto constituído pela chávena feita de aduelas, o compasso e o esquadro tinha um significado indefinível e aguçava a curiosidade dos cultores do belo e das belas artes...”. “Mas eu não quero saber da beleza - respondeu o Zé do Candeeiro - eu queixo-me é dos milhões que estou a perder. Quando estava ali aquilo, nem que fosse um mamarracho, vinham cá milhares de turistas e eu vendia mais de uma tonelada de pastéis de Águeda por ano. No verão, até abria ao domingo e o Joaquim da Trigal também estava aberto. E com os pastéis, sempre tomavam um branquito, uma jeropiga ou uma água do Luso fresca, que eu tirava da torneira!”. ”Vinham ver a chávena?”, perguntou a Luísa do Mel. Também vinham por causa da chávena, mas principalmente o que os trazia cá era a qualidade dos nossos produtos, o melhor pastel com amêndoa e os melhores sequilhos, que estavam referenciados no Roteiro Michelin !”
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