Clube da venda nova: É tão sublime que parece utópico
Na frontaria do Vidal dos Leitões ergueram-se duas bandeiras, uma Portuguesa e outra Brasileira, para receber os ilustres irmãos vindos de Rio Grande, que vinham reviver a geminação com Águeda. Na mesa corrida, adornada com bandeirinhas e flores verdes e amarelas e estrelinhas azuis pintadas no tecto, sentaram-se o Cônsul Adelino, vindo do lado de lá e todos os notáveis de Águeda que participaram na geminação. Tilintavam e refulgiam medalhas no peito de alguns e outros esticavam o pescoço e preparavam a lapela para pendurar a fita. Todos queriam falar e, realmente, falaram muitos. “Esta geminação vale pelo que tem de espiritual, pelo afecto que criou entre os povos das nossas cidades irmãs...”, dizia, empolgado, o Mar e Sal, a olhar as estrelas do tecto. “É tão sublime que parece utópico!”. A seu tempo, o Lenine de Falgoselhe, usou da palavra e, em longo discurso never ending, contrariou o tom enternecedor do verbo do Mar e Sal e disse: “A esta geminação não se pode dar apenas o tom fantasioso, afectivo e imaterial, temos que pensar também no material, nas relações comerciais, na troca de bens e serviços….”. De vez em quando, o Lenine interrompia o fio do seu discurso, para dizer: “ Eu já me calo!”. Mas isso era para respirar e apanhar mais folgo para continuar. “Por exemplo e em linguagem metafórica, o Cônsul Adelino poderia ter trazido na sua mala um peixe fresco ou uma picanha lá do Rio Grande e nós oferecíamos-lhe aqui uma caçoila de chanfana ou um leitão à Bairrada. Mas - continuou o Lenine - se por acaso a mercadoria que ele trouxesse tivesse mais valor do que a chanfana e o leitão, para não haver desequilíbrio na balança comercial, nós dávamos-lhe mais uma cabidela ou até um galo assado!...”. *** * *** A Associação dos Comerciantes de Águeda resolveu atribuir alguns prémios aos associados que mais se distinguiram no último ano. Como sempre, há os que ficam contentes, os premiados, e os que acham mais injustiçados do que os adeptos do Sporting quando perdem um jogo. “Não concordo - barafustava o Acácio Queirós do Vale - eu julgo que merecia o Prémio Inovação. Comprei uma máquina de lavar cabeças, o que há de mais moderno, automática, o cliente enfia a cabeça e já está! E o meu escanhoado é perfeito…”. “E então eu, nem se fala - dizia o Luís Bastinhos, visivelmente abespinhado - o prémio Comerciante do Ano deveria ser meu. Sou um comerciante tão bom que até consigo vender fatos de fioco, que são iguaizinhos aos de caxemira inglesa! “. “Poxa! ... Então não fui eu a Personalidade do Ano?”, resmungava, com razão, o Zé do Candeeiro, à porta da loja - é uma injustiça; andei eu a alimentar o porco que puseram ali na rotunda e os outros é que têm os prémios!
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