Peço-vos que façam a via rápida Águeda-Aveiro
O apparatchik do Clube da Venda Nova reuniu com o núcleo duro da Associação de Secos e Molhados de Águeda para cozinharem a Festa do Leitão. “Um acontecimento destes, sem uma sessão solene, com discursos mesmo ocos, mas floreados, não tem luzimento”, comentou o Celestino de Almada, presidente da Assembleia do Clube. “E não pode ser numa tenda das que estão lá montadas no recinto, porque parecem tendas de beduínos e eles não comem carne de porco”, comentou o Gil Pedalais. “Tem que ser no nosso salão nobre e com o ritual próprio de um sucesso deste tipo. Temos que sensibilizar o governante que vem de Lisboa. Desenhou-se o cenário e cumpriu-se. À entrada do salão estava estendida uma fita encaracolada como o rabo de um leitão que o figurão de Lisboa cortou com uma tesoura de podar. Entrou e sentou-se à mesa coberta de carqueja onde estava armado um leitão fumegante, tendo ao lado uma travessa de batata frita e uma bandeja com taças de espumante”. Quando viu a batata frita, o dr. Joaquim Almada desmaiou. Inicialmente seriam três os seletos para essa mesa, mas depois sentaram-se cinco e ainda tiraram a cadeira ao Seara Alheia, que ficou muito melindrado, por não ter oportunidade de ler o discurso que preparara para a ocasião. Abriram-se as intervenções. O speacker do Clube disse que ia entregar, e entregou, a palavra ao Castilho das Pompas Fúnebres que, num improviso lido, rematou em tom de lamúria e mendicância: “Preciso da vossa ajuda. Esta Festa do Leitão, dá nome à terra, à região e ao país. O Clube deu pouco, estamos sem dinheiro. Olhem que até esse leitão que aí está, foi comprado em leasing...”. “É justificável alguma tristeza deste orador”, obtemperou o Gil Pedalais, acrescentando: “Mas nós não demos assim tão pouco. O Clube participou com uma quantia choruda e forneceu os tapumes e todos os empecilhos que encharcaram as ruas da baixa”. “Mais uma vez – clamou o Gil Abredepois em falsete, com requebros de fado choradinho, dirigindo-se ao governante – peço-vos que façam a via rápida Águeda-Aveiro. Está ali no Milénio, numa rotunda, uma pedra a marcar o início da estrada, mas não põem as outras. Parece que esta fala não vem a propósito, mas vem. Se pensarmos que os pobres bacorinhos vêm por essas estradas cheias de curvas e buracos, a sofrer! E como eles, todos os animais...”. E começou a chorar. O governante, quando lhe entregaram a palavra encerrou a sessão. “Não trago nenhum cheque para vos ajudar, mas vou propor lá no governo que a cabeça do leitão fique isenta de IVA. Mas não garanto nada! E quanto à estrada para Aveiro, já foi inaugurado o princípio, qualquer dia vamos meter uma pedra em Aveiro,na outra ponta”
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O Egberto das Canas, adepto indefectível do FC Porto, andou numa roda viva à cata de um espaço para instalar em Águeda a Casa do Porto. Teve alguma dificuldade porque os donos das casas disponíveis, ou eram de outros clubes, ou receavam que, em tempo de festa, o entusiasmo se manifestasse nas portas ou nas paredes. Por fim, conseguiu que o Guilhas Gerra lhe arrendasse uma sala nova, ampla e envidraçada, situada no coração da cidade. Feliz, com uma chave na mão, foi ter com o Pelé Bancário: “Temos que juntar fotografias de jogadores e posters das equipas antigas e atuais, tarjas, galhardetes, bandeiras, camisolas, cinzeiros, esferográficas, navalhas, tudo para lá pôr. Vou já buscar o que lá tenho em casa e vou dizer ao meu irmão Abilinho, ao Toca Andar, ao Joaquim Abano e a outros para fazerem o mesmo”. No dia seguinte, reuniram tudo o que puderam e carregaram uma furgoneta de caixa aberta com uma mobília azul e branca e foram para o edifício. Mas, para seu espanto, quando estavam a pendurar uma enorme bandeira na janela, apareceu uma pessoa que peremptoriamente disse: “Não pendurem mais nada, que o Guilhas já arrendou a sala a outro que lhe deu mais, porque o Clube dele é a Associação Recreativa de Defesa do Dinheiro, mais conhecida por “Quem mais der, mais amigo é!”.
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